Em gestão corrente ...como o País...

Setembro 04 2008

   

   Com um esforço solene, o padre Ángel acordou. Esfregou os olhos com os nós do dedos, afastou a cortina do mosquiteiro e permaneceu sentado na esteira lisa, por um momento pensativo, o tempo indispensável para verificar que estava vivo e para se lembrar da data em que se encontrava e da sua relação com o santoral. "Terça-feira, quatro de Outubro", pensou, pronunciando em voz baixa: "São Francisco de Assis".

   Vestiu-se sem se lavar e sem rezar. Era alto, sanguíneo, com uma figura pacífica de boi manso, e movia-se como um boi, com gestos lentos e tristes. Depois de rectificar a abotoadura da sotaina com a atenção lânguida dos dedos com que se verificam as cordas de uma harpa, retirou a tranca e abriu a porta do pátio. Sob a chuva, os nardos trouxeram-lhe à memória as palavras de uma canção.

   - "O mar crescerá com as minhas lágrimas" - suspirou.

   O quarto comunicava com a igreja por meio de um corredor interior com vasos de flores, o chão coberto com ladrilhos soltos por cujas juntas começava a crescer a erva de Outubro. Antes de se dirigir à igreja, o padre Ángel entrou na retrete. Urinou com abundância, contendo a respiração para não sentir o intenso cheiro amoniacal que lhe fazia saltar as lágrimas. Depois saiu para o corredor, recordando: Este barco me levará ao teu sonho". Ao passar a estreita porta da igreja sentiu o cheiro dos nardos pela última vez.

   ...

     

   Este é o inicio do romance "A hora má: o veneno da madrugada", de Gabriel García Marquez, ed. Dom Quixote, tradução de Egito Gonçalves, Lisboa, 2008.

   O livro foi escrito em 1961, nele se encontrando já referências a Macondo e a personagens que vão aparecer, mais tarde, nesse extraordinário romance (talvez o melhor da história da literatura) que é "Cem anos de solidão".

   Não perca tempo; o que gastar a lê-lo será a melhor maneira de viver, excepto, claro, o tempo que gastar a brincar e passear comos seus netos...

  


 


Outubro 11 2007

   

   Era uma vez antigamente, mas muito antigamente, nas profundas do passado, quando os bichos falavam, os cachorros eram amarrados com linguiça, alfaiates casavam com princesas e as crianças chegavam no bico das cegonhas.

   Hoje meninos e meninas já nascem sabendo tudo, aprendem no ventre materno, onde se fazem psicanalizar para escolher cada qual seu complexo preferido, a angústia a solidão, a violência.

   Aconteceu naqele então uma história de amor.

   

(Prólogo do livro "O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá",de Jorge Amado, dedicado a seu filho João Jorge, no seu 1º aniversário - 1948)

emgestaocorrente às 22:06

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