Em gestão corrente ...como o País...

Julho 14 2009

Ivone Costa, no blogue

www.ponteirosparados.blogspot.com

publicou esta história que, sendo tão fabulosa e tão bem escrita, não quero deixar de partilhar com os meus leitores.

 

MARIA INÁCIA

 
Eu não sei ao certo em que dia este post devia ter sido escrito. Na família sabe-se que a minha bisavó Maria Inácia fazia anos por meados de Julho. Sabemos que ela casou em 1892 com o meu bisavô Miguel Rodrigues, vinte e poucos anos mais velho do que ela.

 
De todas as netas, apenas a minha mãe se parecia com ela. Era bonitinha, muito pequenina e frágil. Esta fotografia é da minha mãe, aos 24 anos. A minha avó dizia que, aqui, eram rigorosamente iguais.


Todas as minhas outras tias se pareciam com a minha avó: eram mulheres lindíssimas, altas, de pele clara e olhos verdes. Para os leitores, a quem estes pormenores possam interessar, eu saio ao meu pai: somos baixotes, morenos e feios. Os deuses deram-nos, em compensação, uma muito boa memória que bem útil nos tem sido ao longo da vida.

Mas vamos ao que interessa. Era o meu bisavô Miguel Rodrigues rapaz de 20 e poucos anos, quando foi visitar um amigo a quem, ao fim de alguns anos de porfia, nascera finalmente um rebento. Uma rapariga. O meu bisavô, dando-lhe o abraço da praxe disse: "Essa, guardem-na para mim. Quando chegar a altura, caso com ela." E assim fez: tinha Maria Inácia 18 anos quando, menina e moça, a levaram de casa de pai para casa do marido.

No Vale do Bispo, a herdade do meu bisavô, esperava-a a minha trisavó Rosalina, uma sogra dura de roer. Enquanto foi viva, ordenou que ela e o filho comiam em casa e que a nora comia nas mesa dos criados. Convém explicar aos leitores menos habituados a estas conversas que, quando se fala em criados numa herdade do Baixo-Alentejo, não nos referimos a pessoal empertigado de libré, mas sim a criados de lavoura, lavadeiras e ganhões ocasionais.

Nunca se percebeu bem esta atitude da minha trisavó. Nem a aceitação passiva do meu bisavô, homem afável, estimado, sério. Meandros desta história que se perderam nas voltas dos tempos.

Penso que ela terá morrido uns 5 anos depois do casamento do filho. A minha avó ainda não era nascida, mas Maria Inácia já tinha tido um filho que havia de morrer moço, com 18 anos.

Eu penso muitas vezes naqueles 5 anos na mesa dos criados. Que relação seria aquela? Como olhariam eles para a rapariga a quem a patroa sentava à mesa deles mas que, mais ano, menos ano, seria ela a patroa? Que pensariam eles da atitude do marido? Será que pensavam ou apenas esperavam a passagem do tempo? E ela? O que sentiria? Que coisas lhe terão ensinado, que segredos lhe terão contado ou escondido? Essa época permanecerá sempre um mistério e um fascínio para mim.

Pois a minha trisavó Rosalina morreu, a minha bisavó Maria Inácia tomou o seu lugar na mesa de dentro. Já a minha a avó tinha 10 anos quando o pai morreu. Eu ouvi-a tantas vezes contar esta história que quase consigo ver os detalhes.

Logo no dia a seguir ao do enterro, apareceu lá em casa o irmão do meu bisavô. Devia ser Setembro, porque a conversa teve lugar cá fora, no alpendre sobre o qual havia videiras cujos cachos, dizia a minha avó, começavam a amadurar.

Vinha o cunhado dizer-lhe que, visto que não havia "papéis", no que respeitava ao que ela tinha herdado por morte do pai, havia de se ver, mas aquilo que ela pensava ter acabado de herdar do marido, que tirasse daí a ideia. Era tudo dele.

Maria Inácia respondeu: "Fiquei ciente, meu cunhado. Vossemecê é servido de alguma coisa?". Como ele não era servido de nada, ela entrou em casa. Pouco depois, mandou que lhe preparassem umas mudas de roupa e que lhe aparelhassem a égua para bem cedo. Ia, de madrugada, para Odemira.

Odemira fica a uns 50km do vale do Bispo. Os meus primos dizem que terá lá chegado pelo fim da tarde. Aquela mulher só conhecia o caminho da casa onde nascera para a casa onde casara. Nunca fora a parte alguma. Sabia assinar o nome dela, mas do mundo não sabia mais nada. Uma onda de desassossego passava pela casa. No dia seguinte, enquanto lhe prendia uma espingarda na ilharga, um criado de lavoura ainda tentou : "Não vá, lavradora, sabe-se lá o que vossemecê pode encontrar." Mas ela fez-se ao caminho.

Devem ter passado mais de quinze dias sem notícias. Como eu gostava de saber as voltas que deu, quem procurou, como encontrou as pessoas certas, como se moveu num mundo e numa linguagem que ela nem sabia existirem.

A minha avó dizia que, quando ela chegou e saltou da égua, o preto da viuvez vinha tão coberto de poeira que parecia cinzento. Bebeu um copo de água, mandou chamar o cunhado e foi esperá-lo debaixo do alpendre.

Quando ele chegou, Maria Inácia disse: "Olhe, meu cunhado, Não sei explicar bem estas coisas, mas estes papéis que aqui estão não são os verdadeiros. Os verdadeiros estão bem guardados, mas estes valem tanto como os outros. Agora leia. Leia vossemecê, que lê melhor do que eu. E leia em voz alta."

E ele leu, enquanto dos quatro cantos da casa se juntava gente para ouvir. E lá dizia que ela, Maria Inácia Rodrigues, que também assinava apenas Maria Inácia, era dona e legítima proprietária do Vale do Bispo, dos Fitos Grandes, da Terra Nova, da Fragura, das Caveiras Altas e do Serro do Olival. Quando ele acabou de ler e de engolir em seco, ela disse-lhe, na voz mansinha que me contaram que ela tinha: "E agora, meu cunhado, saia daqui e, quando passar por estes lados, passe lá bem longe do portão que cá em casa toda a gente atira bem." Levantou-se, virou-lhe as costas e entrou em casa.

De Maria Inácia estão vivas seis netas, cinco bisnetas e quatro trinetas. Somos completamente diferentes umas das outras. Há-as como eu : cruéis, tristes, violentas, amarguradas e generosas. Como a minha mãe: meigas, práticas, compassivas e implacáveis. Como a minha tia Lila: inteligentes, perspicazes, teimosas e determinadas. Não há duas iguais. Só uma coisa persiste em nós, como um ferrete no nosso código genético: um apuradíssimo instinto de defesa que dispara ao mínimo sinal de perigo.

E, como são engraçadas estas coisas, todas nós atiramos bem.

 
 

Outubro 30 2008

   

   Concordo com José Ricardo Costa em Ponteiros Parados

  

CAMARADA LAVOISIER

 
Se quisermos compreender a tragédia do ensino em Portugal, teremos de regredir até ao passado revolucionário, maoista e estalinista da actual ministra da educação.
 
A ilusão comunista que, na companhia do nazismo, conduziu aos maiores pesadelos do século XX, partia do pressuposto de que a realidade poderia ser transformada através de uma planificação laboratorialmente conduzida. A realidade podia ser a fome, a miséria, a repressão, mas o delírio utópico de muitos via nisso uma espécie de dores de crescimento, normais no caminho para o paraíso.

As estatísticas, os números, a propaganda, mostravam a superioridade do modelo, concebido por iluminados que não percebiam nada da realidade mas a quem as verdades eram sobrenaturalmente reveladas. Só que a prática mostrava exactamente o contrário.

A farsa que existe hoje no actual sistema de ensino resulta de uma ideologia e atitude mental muito semelhante. Pessoas que fizeram cursos, depois mestrados, depois doutoramentos, que escreveram livros e vão a colóquios e conferências, consideram que, através de leis e mais leis e mais leis, ou de manipulações burocráticas, a realidade atinge a perfeição desejada. Depois, o desejo de ver uma determinada realidade faz-nos ver essa mesma realidade ainda que para isso se faça muita batota e malabarismos estatísticos.

O Estalinismo é como a natureza. Não ganhou nem perdeu. Apenas se transformou.

   

 

 


Setembro 03 2008

  

   José Ricardo Costa, professor de Filosofia em Torres Novas, estreou-se na blogosfera com o blogue "Ponteiros Parados".

   A avaliar pelas suas crónicas semanais no Jornal Torrejano, será mais um blogue de visita diária obrigatória.

  Um abraço ao José Ricardo!

     


 

emgestaocorrente às 20:27

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