Em gestão corrente ...como o País...

Julho 23 2009

   

Matilde, nome de planta ou pedra ou vinho,
de tudo o que nasce da terra e dura,
palavra em cujo crescimento amanhece,
em cujo estio estala a luz dos limões.

Nesse nome correm navios de madeira
rodeados por enxames de fogo azul-marinho,
e essas letras são a água de um rio
que desagua no meu coração calcinado.

Ó nome descoberto sob uma trepadeira
como a porta dum túnel desconhecido
que comunica com a fragrância do mundo!

Oh, invade-me com a tua boca abrasadora,
pesquisa-me, se quiseres, com os teus olhos nocturnos,
mas no teu nome deixa que eu navegue e durma.

 


 

emgestaocorrente às 18:54

Abril 24 2009

Para o meu coração...


Para o meu coração basta o teu peito,
para a tua liberdade as minhas asas.
Da minha boca chegará até ao céu
o que dormia sobre a sua alma.

És em ti a ilusão de cada dia.
Como o orvalho tu chegas às corolas.
Minas o horizonte com a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.

Eu disse que no vento ias cantando
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles tu és alta e taciturna.
E ficas logo triste, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu acordei e à vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam na tua alma.


Pablo Neruda, in
"Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada", Publ. D. Quixote, 1977
Tradução de Fernando Assis Pacheco

 

    


 

emgestaocorrente às 16:04

Novembro 28 2007

   

Dois amantes felizes fazem um só pão,

uma só gota de lua sobre a erva,

deixam andando duas sombras que se juntam,

deixam um único sol vazio numa cama.

   

De todas as verdades escolheram o dia:

não se atavam com fios, mas com um aroma,

e não despedaçaram a paz nem as palavras.

A alegria é uma torre transparente.

     

O ar, o vinho, vão com os dois amantes,

a noite dá-lhes as suas pétalas felizes,

têm direito aos cravos que apareçam.

   

Dois amantes felizes não têm fim nem morte

nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,

são eternos como é a natureza.

    

Pablo Neruda, in

"Cem sonetos de amor", Ed. D. Quixote

 


emgestaocorrente às 21:25

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