Em gestão corrente ...como o País...

Fevereiro 28 2008

    

"Só mais um dia,

um dia luminoso e barulhento

por mim a dentro,

um dia bastaria,

em prosa que fosse.

   

Mas dá-me para a melancolia,

para a limpeza, para a harmonia,

impacientam-me as migalhas

de pão na mesa, as falhas

da pintura do tecto,

as vozes das visitas, despropositadas,

sinto-me sujo como um objecto,

desapegado, desarrumado.

   

Trocaria bem esse dia

por um pouco de arrumação

- no quarto e no coração."

     

Manuel António Pina, in

"Poesia Reunida", Assirio & Alvim, Lisboa, 2001

 


 

emgestaocorrente às 22:10

Fevereiro 04 2008

   

Vê se há mensagens

no gravador de chamadas;

rega as roseiras;

as chaves estão

na mesa do telefone;

traz o meu

caderno de apontamentos

(o de folhas

sem linhas, as linhas distraiem-me).

Não digas nada

a ninguém,

o tempo, agora,

é de poucas palavras,

e de ainda menos sentido.

Embora eu, pelos vistos,

não tenha razão de queixa.

     

Senhor, permite que algo permaneça,

alguma palavra ou alguma lembrança,

que alguma coisa possa ter sido

de outra maneira,

não digo a morte, nem a vida,

mas alguma coisa mais insubstancial.

Se não para que me deste os substantivos e os verbos,

o medo e a esperança,

a urze e o salgueiro,

os meus heróis e os meus livros?

    

Agora o meu coração

está cheio de passos

e de vozes falando baixo, de nomes passados

lembrando-me onde

as minhas palavras não chegam

nem a minha vida

nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.

    

Manuel António Pina, in

"Monólogos", incluído na "Poesia Reunida", Assirio & Alvim, 2001

        


emgestaocorrente às 22:17

Dezembro 06 2007

   

Regresso devagar ao teu

sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que

não é nada comigo. Distraído percorro

o caminho familiar da saudade,

pequeninas coisas me prendem,

uma tarde num café, um livro. Devagar

te amo e às vezes depressa,

meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,

regresso devagar a tua casa,

compro um livro, entro no

amor como em casa.

     

Manuel António Pina, in

"Poemas de amor" , org. e prefácio de Inês Pedrosa, Ed. D. Quixote

 


 


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