Nos anos 80, vinham notícias do Afeganistão que falavam de uns estudantes de teologia que resistiam à ocupação soviética.
Ingenuamente, eu imaginava jovens com o ar angélico do padre Vítor Melícias, que passavam o dia a ler, meditar, enfim, a tratar da horta, e que saíram dos mosteiros para irem combater os materialistas dialécticos de Moscovo.
Porém, ao ver uns sujeitos andrajosos a bombardear as estátuas de Buda, com o mesmo entusiasmo que com que os caçadores, ao domingo, disparam sobre as lebres, comecei a perder as ilusões.
Ora, foi também isto que me aconteceu com os cientistas da educação. Que pensei eu quando comecei a ouvir falar deles? Em pessoas que dedicavam a vida a estudar a melhor maneira de levar as crianças, não só a saírem da escola sabendo muito mais do que quando entraram, mas também com a inteligência mais espicaçada.
Este meu idílio mental foi bom enquanto durou. Até ao dia em que comecei a perceber que trucidavam os alunos com a mesma pontaria com que os estudantes de teologia atiravam aos Budas e os caçadores às lebres.
São, pois, perigosos. Uma mistura de fanáticos com fé no mito do bom selvagem e de caçadores de lebres que esfolam a inteligência dos alunos, cientificamente educados pelos seus mestrados e doutoramentos. Mas o que é, afinal, um cientista da educação?
Alguém que passou anos a estudar para concluir que a educação deve estar centrada no aluno, que o insucesso escolar é sempre o resultado de um fracasso do professor, que este não é o detentor do saber nem está na aula para ensinar. É apenas um amigo que está ali para ajudar o aluno a pesquisar, a investigar, mas também para lhe dar quilos de auto-estima de modo a poder vir a ser um cidadão feliz.
Daí encarar com horror o facto de um menino poder chumbar, ainda que este ligue tanto ao estudo como um leão a uma couve-flor, ou saiba tanto do que lhe tentam ensinar como se tivesse a memória de um doente de Alzheimer.
Aliás, graças a este espírito evangélico, vai ser agora possível a um menino, depois de faltar 103 vezes às aulas durante um ano, porque não lhe apeteceu ir, fazer um exame para ter de passar.
A valorização científica de um professor é irrelevante, considerando-se mesmo reaccionária e conservadora a ideia de a escola ser um local onde os alunos tenham de usar o esforço e aprender com seriedade.
Daí a ideia de transformar a escola num ATL a tempo inteiro. E com disciplinas giras, como Estudo Acompanhado, Área de Projecto, Formação Cívica, as quais, para além de permitirem dar boas notas até a um ouriço-cacheiro, vão ainda contaminar as outras disciplinas, saindo os alunos da escola com o cérebro tão descompensado como o de um madeirense após um discurso de Alberto João Jardim.
Mas atenção. Por detrás de todo o folclore psicopedagógico que empesta o discurso do nosso talibã, esconde-se um burocrata e um frio tecnocrata. Um cientista da educação vê a escola como uma fábrica de automóveis na qual os professores têm de cientificamente aplicar os planos e metodologias inspirados nos seus nauseabundos mestrados e doutoramentos.
Adora ainda ver os professores em reuniões inúteis, a preencher papéis como se fossem funcionários do Registo Predial, ou então, último grito da moda, com os olhos tão especados num portátil como um esfomeado num cozido à portuguesa. Não sei explicar porquê, mas tem um fascínio quase erótico por planificações, matrizes, planos de aula ou grelhas de avaliação que parecem o cockpit de um Airbus.
O nosso talibã desconfia dos professores que lêem livros em vez de estarem a preencher relatórios, em reuniões, a preparar powerpoints para poder comunicar com alunos que se perdem ao fim de três frases, a transportar portáteis para a aula para os alunos pesquisarem informações na Internet que depois irão reproduzir como se tivessem o cérebro de um papagaio, ou a requisitar filmes para fomentar estratégias de ensino-aprendizagem (é assim que se diz) mais ricas e estimulantes.
Estes cientistas, só por si, não seriam de temer. O problema é a sua ligação ao poder político, ou pior, o facto de já serem eles o poder político. Estes talibãs não matam com explosivos. Mas matam. Matam com maçãs lindas e lustrosas com as quais recebem os alunos no início de cada ano lectivo.
Mas que ninguém entre em pânico. Estamos em Portugal e a falar da morte de coisas como saber, cultura, inteligência e boa educação.
Os pais, claro, aplaudem, os alunos rejubilam. Os professores, naturalmente, resignam-se.