Com um esforço solene, o padre Ángel acordou. Esfregou os olhos com os nós do dedos, afastou a cortina do mosquiteiro e permaneceu sentado na esteira lisa, por um momento pensativo, o tempo indispensável para verificar que estava vivo e para se lembrar da data em que se encontrava e da sua relação com o santoral. "Terça-feira, quatro de Outubro", pensou, pronunciando em voz baixa: "São Francisco de Assis".
Vestiu-se sem se lavar e sem rezar. Era alto, sanguíneo, com uma figura pacífica de boi manso, e movia-se como um boi, com gestos lentos e tristes. Depois de rectificar a abotoadura da sotaina com a atenção lânguida dos dedos com que se verificam as cordas de uma harpa, retirou a tranca e abriu a porta do pátio. Sob a chuva, os nardos trouxeram-lhe à memória as palavras de uma canção.
- "O mar crescerá com as minhas lágrimas" - suspirou.
O quarto comunicava com a igreja por meio de um corredor interior com vasos de flores, o chão coberto com ladrilhos soltos por cujas juntas começava a crescer a erva de Outubro. Antes de se dirigir à igreja, o padre Ángel entrou na retrete. Urinou com abundância, contendo a respiração para não sentir o intenso cheiro amoniacal que lhe fazia saltar as lágrimas. Depois saiu para o corredor, recordando: Este barco me levará ao teu sonho". Ao passar a estreita porta da igreja sentiu o cheiro dos nardos pela última vez.
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Este é o inicio do romance "A hora má: o veneno da madrugada", de Gabriel García Marquez, ed. Dom Quixote, tradução de Egito Gonçalves, Lisboa, 2008.
O livro foi escrito em 1961, nele se encontrando já referências a Macondo e a personagens que vão aparecer, mais tarde, nesse extraordinário romance (talvez o melhor da história da literatura) que é "Cem anos de solidão".
Não perca tempo; o que gastar a lê-lo será a melhor maneira de viver, excepto, claro, o tempo que gastar a brincar e passear comos seus netos...