Em gestão corrente ...como o País...

Março 09 2012

 

Igual aos deuses me parece

quem a teu lado vai sentar-se,

quem saboreia a tua voz

mais as delícias desse riso

 

que me derrete o coração

e o faz bater sobre os meus lábios.

Assim que vejo esse teu rosto,

quebra-se logo a minha voz,

 

seca-me a língua entre os dentes,

corre-me um fogo sob a pele,

ficam-me surdos os ouvidos

e os olhos cegos de repente.

 

Torna-se liquido o meu corpo:

transpiro e tremo ao mesmo tempo.

Vejo-me verde. mais que a erva.

Só por acaso é que não morro.

 

 

Safo,

séc. VII a. c., Grécia

 

Tradução de David Mourão-Ferreira

 

in "Os Dias do Amor, Um poema para cada dia do ano",

de Inês Ramos, Ministério dos Livros Editores, 2009


emgestaocorrente às 22:06

Novembro 12 2011

  

Má consciência

 

  

O adjectivo

dá-me de comer.

Se não fora ele

o que houvera de ser?

  

Vivo de acrescentar às coisas

o que elas não são.

Mas é por cálculo,

não por ilusão.

 

  

Alexandre O'Neill,

in "De ombro na ombreira", Lisboa, 1969


emgestaocorrente às 23:02

Novembro 06 2011

 

Se...

 

 

Se é possível conservar a juventude

Respirando abraçado a um marco do correio;

Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora e a mordeu

Deixando-a em estado grave;

Se ao descer do avião a Duquesa do Quente

Pôs marfim a sorrir;

Se Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;

Se na América um jovem de cem anos

Veio de longe ver o Presidente

A cavalo na mãe;

Se um bode recebe o próprio peso em aspirina

E a oferece aos hospitais do seu país;

Se o engenheiro sempre não era engenheiro

E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;

Se reentrante, protuberante, perturbante,

Lola domina ainda os portugueses;

Se o Jorge (o "ponto" do Jorge!) tentou beber naquela noite

O presunto de Chaves por uma palhinha

E o Eduardo não lhe ficou atrás

Ao sair com a lagosta pela trela;

Se "ninguém me ama porque tenho mau hálito

E reviro os olhos como uma parva";

Se Mimi Tavessuras já não vem a Lisboa

Cantar com o Alberto...

  

...Acaso o nosso destino, tac, vai mudar?

  

  

  

Alexandre O'Neill,

in " no Reino da Dinamarca", 1958


 

emgestaocorrente às 17:07

Novembro 04 2011

As rosas

 

 

Quando à noite desfolho e trinco as rosas

É como se prendesse entre os meus dentes

Todo o luar das noites transparentes,

Todo o fulgor das tardes luminosas,

O vento bailador das Primaveras,

A doçura amarga dos poentes,

E a exaltação de todas as esperas.

 

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen,

in "Obra Poética", Ed Caminho, Lisboa, 2010


 



Novembro 02 2011

  

Esta gente

 

 

 

Esta gente cujo rosto

Às vezes luminoso

E outras vezes tosco

 

Ora me lembra escravos

Ora me lembra reis

 

Faz renascer meu gosto

De luta e de combate

Contra o abutre e a cobra

O porco e o milhafre

 

Pois a gente que tem

O rosto desenhado

Por paciência e fome

É a gente em quem

Um país ocupado

Escreve o seu nome

  

E em frente desta gente

Ignorada e pisada

Como a pedra do chão

E mais do que a pedra

Humilhada e calcada

 

Meu canto se renova

E recomeço a busca

De um país liberto

De uma vida limpa

E de um tempo justo

  

Sophia de Mello Breyner Andresen,

in "Geografia", de 1967, incluído em "Obra Poética", Ed. caminho, Lisboa, 2010

 


 


Outubro 31 2011

 

     

Esfinge


Acordo-te de uma sonolência
de esfinge. Quem és? pergunto, em
que deserto  procuraste o amor, e
que oásis se desfez nos teus
dedos, quando o tocaste?

Há um voo de ave perdida
nos teus olhos, quando os pousas
no chão, e um reflexo de charco
te faz subir ao céu onde as nuvens
chegam com o outono.

Não penses no inverno
inexorável; e guarda o pássaro
de algures na gaiola da tua
alma, para que o seu canto
te alegre nas noites mais frias.

 (Rapinado de www.aaz-nj.blogspot.com)


emgestaocorrente às 18:13

Outubro 30 2011

 

Turva hora onde

Principia a noite

E o dia se esconde.

 

Hora de abandonos

Em que a gente esquece

Aquilo que somos

E o tempo adormece.

 

Nevoenta hora,

Hora de ninguém

Em que a gente chora

Não sabe por quem.

 

E tudo se esconde

Nessa hora onde

Por estranha magia

Brilha o sol da noite

E o luar de dia.

 

 

Natália Correia

in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, Lisboa 1999

 


emgestaocorrente às 19:08

Outubro 01 2011

À flor da  vaga

Nas róseas ondas quando o amanhecer
Carmina a areia, entre rochas altas
Banham-se as belas. Vem amigo ver,
Flutuar meu cabelo à flor das águas.

Ó vem,sedento ! Amigo,vem beber
A água que do cabelo me escorrer.

No mar que à areia nácar vem render,
Entre altas rochas, raiando a madrugada,
Banham-se as belas. Vem amigo ver
Meus ombros flutuar à flor da vaga.
ó vem sedento!Amigo,vem beber
A água que dos ombros me escorrer.

Na vaga que de brilho a areia asperge
Entre altas rochas, quando a manhã desponta
Banham-se as belas. Vem amigo ver
Meu seio flutuar à flor da onda.
Ó vem, sedento!Amigo,vem beber
A água que do seio me escorrer.


Natália Correia
emgestaocorrente às 09:23

Setembro 04 2011

 

Votada ao fogo obediente ao perigo

Feroz do amor ser muito e o tempo pouco,

Chegas ébrio de sonho, ó estranho amigo

E eu não sei se por mim és anjo ou louco.

  

Num beijo infindo queres morrer comigo.

Nesse extremo és sagrado e eu não te toco.

Esquivo-me: o teu sonho mais instigo.

Fujo-te: a tua chama mais provoco.

  

A incêndio do teu sangue me condenas

E com ciumentas ervas te envenenas

Dizendo às nuvens que só tu me viste.

  

Bebendo o vinho de amantes mortos queres

Que eu seja a mais prateada das mulheres.

E de ser tão amada eu fico triste.

 

 

in "Poesia Completa",

Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999


emgestaocorrente às 14:14

Maio 21 2011

 

a vida de família tornou-se bem difícil

com as contas a pagar os filhos a fazer

ou a evitar a ranhoca a limpar

a vida de família não tem razão de ser

não tem ração de querer

 

a vida de família jangada da medusa

é o tablado da antropofagia

  

mas ficam os retratos cristo virgem maria

e os sobreviventes, que vão chupando os dentes

  

 

Alexandre O'Neill, in "Poesias Completas 1951/1986",

Imprensa Nacional, Lisboa, 1990

 


 

emgestaocorrente às 22:57

Fevereiro 12 2011

DISCURSO

 

 

no dize-tu-direi-eu
havia um que dizia
quer dizer é como quem diz
que o mesmo é não dizer nada
tenho dito

 

 

 

Alexandre O'Neill,
in "Poesias Completas 1951/1986"


emgestaocorrente às 17:10

Janeiro 23 2011

A exaltação da pele

 

 

 

Hoje quero com a violência da dádiva interdita.

Sem lírios e sem lagos

e sem o gesto vago

desprendido da mão que um sonho agita.

Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu

suspensa de mundos cintilantes pelas veias

metade fêmea metade mar como as sereias

 

 

 

 

 

Natália Correia,

in "Poesia Completa", Publ. Dom Quixote, 1999


emgestaocorrente às 09:31

Julho 25 2010

Cortina

 

 

   Peço-te que feches

   a cortina

   e à sua sombra já estremeço nua

 

   Vens-ne cobrir o frio

   com o teu calor

   e à nossa roda já tudo flutua

 

 

 

Maria Teresa Horta, in

"Só de amor", Quetzal Ed., Lisboa, 1999


emgestaocorrente às 17:45

Abril 03 2010

 

Ela:
Meu amado
como é doce banhar-me perante ti
deixar que a minha nudez se revele
   por debaixo da
   túnica molhada
mergulhar contigo
   e voltar a emergir
com um bonito peixe vermelho
   entre os dedos

 

Ele:
Quando ela me acolhe
   com os braços abertos
um perfume delicioso e estranho
   me envolve
como se tivesse chegado agora
   da longínqua Punt
E quando a vejo
   o fogo sobe-me à cabeça
e sinto-me bêbedo
   sem ter bebido

  

Ela:
O teu amor penetra o meu corpo
como o vinho a água
quando a água e o vinho se misturam

 

 


Tradução de Jorge Sousa Braga,
"Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro", Ed. Assírio & Alvim, 2001


emgestaocorrente às 21:40

Março 03 2010


Que surpresa
a dos dedos
quando percorrem o corpo

ou espalham os cabelos
pelas costas
despidas

Em breve será o ventre
e em seguida

as pernas lentas
mansamente erguidas


In "Maria Teresa Horta - Poesia Reunida", Dom Quixote, Lisboa, 2009

 


 

emgestaocorrente às 22:43

Março 03 2010
 
Desordenada comigo
oponho o corpo ao destino
como quem veste o vestido
e o despe em desatino

Desavinda com o sossego
ponho a nudez onde acendo
o grito do meu prazer
que ora prendo ora desvendo


In "Poesia Reunida", Dom Qixote, Lisboa, 2009
 

 

emgestaocorrente às 22:26

Fevereiro 16 2009

   

Há dias

    

   Há dias em que julgamos

   que todo o lixo do mundo nos cai

   em cima. Depois

   ao chegarmos à varanda avistamos

   as crianças correndo no molhe 

   enquanto cantam.

   Não lhes sei o nome. Uma

   ou outra parece-se comigo.

   Quero eu dizer: com o que fui

   quando cheguei a ser

   luminosa presença da graça,

   ou da alegria.

   Um sorriso abre-se então

   num verão antigo.

   E dura, dura ainda.

    

Eugénio de Andrade, in

"Os lugares do lume", 1998

      


 


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