Em gestão corrente ...como o País...

Outubro 31 2011

 

     

Esfinge


Acordo-te de uma sonolência
de esfinge. Quem és? pergunto, em
que deserto  procuraste o amor, e
que oásis se desfez nos teus
dedos, quando o tocaste?

Há um voo de ave perdida
nos teus olhos, quando os pousas
no chão, e um reflexo de charco
te faz subir ao céu onde as nuvens
chegam com o outono.

Não penses no inverno
inexorável; e guarda o pássaro
de algures na gaiola da tua
alma, para que o seu canto
te alegre nas noites mais frias.

 (Rapinado de www.aaz-nj.blogspot.com)


emgestaocorrente às 18:13

Agosto 18 2008

                

   De "A a Z", visita diária obrigatória, mais um poema de Nuno Júdice:

        

Tempo fluvial

 

 

 

 

 

Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.

 

 

                


 

emgestaocorrente às 14:42

Agosto 01 2008

          

   De volta ao "A a Z", de Nuno Júdice.

Metamorfose fluvial

 

 

 
Estas são as mulheres, levando
nas mãos os castiçais de fogo da sua manhã,
subindo uma escada de silêncio para dentro
das casas de onde vieram, empurrando
as portas dos rios mais fundos para entrarem
nos palácios do abismo, e os iluminarem
com as lâmpadas nuas dos seus corpos. Ouço
as suas vozes crescerem no interior
dos montes, num fulgor amarelo de flores
vagarosas como as mãos que nascem
dos seus braços. Estas mulheres são imensas
como as nuvens que atravessam a paisagem,
e escrevem na página do céu o nome
dos deuses que as amaram, transformando-as
em árvores, em astros, em animais
incalculáveis num prado breve como
a sua eternidade. Dizem-me que as suas vozes
são roucas, que os seus cabelos cobrem
os arvoredos do horizonte, que os seus dedos
contam os amantes na exaustão da madrugada. E
empurro-as para o corredor da memória,
para que se percam numa vociferação de sombras,
como se não soubessem o caminho do átrio
onde as espero, e não viessem tapadas
por um manto de orvalho, gota a gota escorrendo
dos seus lábios.
   
 
 

 


 

emgestaocorrente às 15:09

Maio 04 2008

     Segunda-feira, Abril 28, 2008

Tear

 

        
 Num reino de bruma, entre os ramos
de árvores quase secas e breves trilhos,
o ar libertava uma vaga espuma,
e a luz soltava líquidos brilhos.

Numa clareira, sombras de saudade
caíam sobre arbustos rasos, e um canto
de campo enchia de sede os vasos
que o tempo partiu num dobrar da idade.

Colhi antigas papoilas, e colei-as
no álbum do horizonte, com o cuspo
do poente, enquanto uma voz distante
rezava o fim de uma oração doente.

E na água parada da lagoa, com os
braços soltos como remos sem uso,
uma parca branca vogava, à toa,
tecendo o destino na linha do seu fuso.

 


 

emgestaocorrente às 10:04

Abril 06 2008

Sábado, Abril 05, 2008

Acordo ortográfico

 



Gosto do teu rosto exacto,
com o cê bem desenhado,
mesmo quando não se vê,
para te pôr, como laço
nos cabelos, o circunflexo
em que nenhum traço há-de
sair, mesmo que um pacto
sem cê nem concessão te
roube o pê nessa pose
de pura concepção.

 

   A não perder, diariamente!

          


 

emgestaocorrente às 10:07

Janeiro 01 2008

        

   Nuno Júdice está de volta à blogosfera!

   O seu A a Z está de novo vivo e cada vez mais recomendável.

   De lá retirámos este post de ano novo.

      

Nós

 


 

 

     

 

Tal como o que importa num poema é, como
escreveu Horácio, usar uma palavra conhecida
como se fosse nova, limpando-a do bafio do uso,
também no amor o que importa é olhar o rosto
que se conhece como se nunca o tivéssemos
visto, descobrindo de cada vez a surpresa de
um encontro em que a beleza nasce de uma
súbita sombra no modo como o olhar se desvia,
ou dessa luz que um entreabrir de lábios
derrama pelo mundo. Posso dizer: «Amo-te»;
e é como se nunca o tivesse dito antes; ou
ainda: «As tuas mãos!»; e o objecto que designo
transforma-se no verbo que faz avançar a vida,
para além da gramática e dos significados.
emgestaocorrente às 12:31

Agosto 26 2007

       

Alegoria floral

   

Um dia em que a mulher nasça do caule da roseira

que cresce no quintal; ou um dia em que a nuvem

desça do céu para vestir de névoa os seus

seios de flor: seguirei o caminho da água nos

canteiros que me levam ao caule, e meter-me-ei

pela terra em busca da raíz.

   

Nesse dia em que os cabelos da mulher se

confundirem com os fios luminosos que o sol

faz passar pela folhagem; e em que um perfume

de pólen se derramar no ar liberto da névoa:

procurarei o fundo dos seus olhos, onde corre

uma tranparência de ribeiro.

   

Um dia irei tirar essa mulher de dentro da flor,

despi-la das suas pétalas, e emprestar-lhe o véu

da madrugada. Então, vendo-a nascer com o dia,

desenharei nuvens com a cor dos seus ~lábios, e

empurrá-las-ei para o mar com o vento brando

da sua respiração.

  

Depois, cobrirei essa mulher que nasceu da roseira

com o lençol celeste; e vê-la-ei adormecer, como

um botão de rosa, esperando que a nuem desça

do céu para a roubar ao sonho da flor.

    

Nuno Júdice,

in "O estado dos campos", 2003

   


 

emgestaocorrente às 18:39

Maio 29 2007

        

      Do Blogue "A a Z" (www.aaz-nj.blogspot.com), do poeta Nuno Júdice , rapinei este magnifico poema.

      Com a devida vénia.                   

             

Sexta-feira, Maio 18, 2007

Cantiga

 



É pelo teu rosto em que as marés passam,
pelos teus lábios em que voam gaivotas,
pelos teus dedos em que a luz perpassa,
pelos teus olhos que me traçam as rotas,

que este barco encontra o caminho,
que este dia descobre que não é tarde,
que as palavras se bebem como vinho,
e o fogo não queima quando arde.

É no que me dizes quando a noite fala,
no que perdura da manhã que se esquece,
no que é dito em tudo o que se cala,
e não precisa de ser dito quando amanhece.

Pode ser o amor tantas vezes sentido,
ou só aquilo que vive no coração,
pode ser o que pensava ter esquecido,
e regressa agora pela tua mão.

Quantas vezes já foi primavera,
e logo aí as flores morreram:
até ao dia em que nada ficou como era,
e todas as folhas mortas reverdeceram.


 


emgestaocorrente às 19:40

Abril 10 2007

       

      Do blogue "A a Z " (www.aaz-nj.blogspot.com) do poeta Nuno Júdice, rapinei (com gosto!) este magnifico texto poético.

      Com a devida vénia.             

        

Domingo, Abril 08, 2007

Uma arte reflexiva

 

 

        

23:05 by Nuno Júdice @

Tal como o pintor copia a natureza, o espelho
serve-se do que existe no mundo em que o puseram
para traduzir a realidade. Ao vê-la, no seu quadro
efémero, tem-se a impressão de que pode ser
um retrato, capaz de durar para além do instante
em que a mulher atravessa o quarto, de frente
para a mulher que a olha, enquanto bebe o chá;
e as frases que trocam perdem-se no espaço
entre elas e o tempo em que viveram. Mas
o movimento que a moldura fecha, enquanto
ela não sai do campo de visão, para se vestir,
é o suficente para denunciar que tudo se resume
a um instante, e que em breve um rosto voltará
para se olhar ao espelho, pentear-se, e retocar
a pintura. A natureza das coisas é tão simples
como isto; e quando o espelho ficar vazio, o que
importa é o jarro e a bacia onde há muito
secou a água com que ela lavou os olhos, cansados
da noite, deixando a sombra das suas mãos
confundir-se com o eco das vozes que a vida levou.
emgestaocorrente às 19:59

Janeiro 28 2007


Viagem

 

Se eu voltasse a nascer, e
as minhas mãos me ensinassem o caminho
que vai do coração ao mundo, e
os meus olhos me abrissem o círculo
que o mar desenha no horizonte,
e o meu nariz respirasse a luz que a manhã
solta de dentro da névoa, e os meus lábios
pedissem o pão de estrelas que as aves
trocam entre si, e os meus passos me conduzissem
para onde ninguém precisa de voltar,
o tecido da minha vida seria transparente
como o vidro da janela que não abro,
o fio que vou puxando seria eterno
como os números que contam os dias de um deus,
a tesoura da noite ficaria na caixa
que não precisei de abrir. Se eu voltasse
a nascer, e as velas do sonho me envolvessem
com o linho do seu vento.

 

 


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