Em gestão corrente ...como o País...

Outubro 30 2011

 

Turva hora onde

Principia a noite

E o dia se esconde.

 

Hora de abandonos

Em que a gente esquece

Aquilo que somos

E o tempo adormece.

 

Nevoenta hora,

Hora de ninguém

Em que a gente chora

Não sabe por quem.

 

E tudo se esconde

Nessa hora onde

Por estranha magia

Brilha o sol da noite

E o luar de dia.

 

 

Natália Correia

in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, Lisboa 1999

 


emgestaocorrente às 19:08

Outubro 01 2011

À flor da  vaga

Nas róseas ondas quando o amanhecer
Carmina a areia, entre rochas altas
Banham-se as belas. Vem amigo ver,
Flutuar meu cabelo à flor das águas.

Ó vem,sedento ! Amigo,vem beber
A água que do cabelo me escorrer.

No mar que à areia nácar vem render,
Entre altas rochas, raiando a madrugada,
Banham-se as belas. Vem amigo ver
Meus ombros flutuar à flor da vaga.
ó vem sedento!Amigo,vem beber
A água que dos ombros me escorrer.

Na vaga que de brilho a areia asperge
Entre altas rochas, quando a manhã desponta
Banham-se as belas. Vem amigo ver
Meu seio flutuar à flor da onda.
Ó vem, sedento!Amigo,vem beber
A água que do seio me escorrer.


Natália Correia
emgestaocorrente às 09:23

Setembro 04 2011

 

Votada ao fogo obediente ao perigo

Feroz do amor ser muito e o tempo pouco,

Chegas ébrio de sonho, ó estranho amigo

E eu não sei se por mim és anjo ou louco.

  

Num beijo infindo queres morrer comigo.

Nesse extremo és sagrado e eu não te toco.

Esquivo-me: o teu sonho mais instigo.

Fujo-te: a tua chama mais provoco.

  

A incêndio do teu sangue me condenas

E com ciumentas ervas te envenenas

Dizendo às nuvens que só tu me viste.

  

Bebendo o vinho de amantes mortos queres

Que eu seja a mais prateada das mulheres.

E de ser tão amada eu fico triste.

 

 

in "Poesia Completa",

Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999


emgestaocorrente às 14:14

Janeiro 23 2011

A exaltação da pele

 

 

 

Hoje quero com a violência da dádiva interdita.

Sem lírios e sem lagos

e sem o gesto vago

desprendido da mão que um sonho agita.

Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu

suspensa de mundos cintilantes pelas veias

metade fêmea metade mar como as sereias

 

 

 

 

 

Natália Correia,

in "Poesia Completa", Publ. Dom Quixote, 1999


emgestaocorrente às 09:31

Setembro 08 2008

     

   De férias esta semana, no Alto Alentejo, pois claro!, com um calor que não deve haver noutras regiões, 4 poemas eróticos, de rajada!

   Ora toma!

    

      

José Gomes Ferreira

    

De: Café

  

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,

mal viu a menina atavessar a rua,

saltou num ímpeto de besouro

e despiu-a toda...

   

E a Que-Sempe-Tanto-Se-Recata

ficou nua,

sonambulamente nua,

com um seio de ouro

e outro de prata.

    

    

Vasco Graça Moura

  

5.    vai-se a lasciva mão

   

vai-se a lasciva mão devagarinho

no biquinho do peito modelando

como nuns versos conhecidos quando

uma mulher a meio do caminho

   

era de vento e nuvens, sombras, vinho,

e sonoras risadas como um bando.

os dedos lestos vão desenredando

roupa,cabelos, fitas, desalinho.

  

a noite desce e a nudez define-a

por contrastes de luz e de negrume

ponto por ponto, alínea por alínea.

  

memória e amor e música e ciúme

transformados nos cachos da glicínia,

macerando no verão sombra e perfume.   

   

  

David Mourão-Ferreira

    

Presídio

 

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.

Que dizer do pescoço, às vezes mármore,

às vezes linho, lago, tronco de árvore,

nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

    

E o ventre, inconsistente como o lodo?...

E o morno gradeamento dos teus braços?

Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:

é também água, terra, vento, fogo...

   

É sobretudo sombra à despedida;

onda de pedra em cada reencontro;

no parque da memóra o fugidio

  

vulto da Primavera em pleno Outono...

Nem só de carne é feito este presídio,

pois no teu corpo existe o mundo todo!

     

    

Natália Correia

   

Cosmocópula

    

O corpo é praia a boca é a nascente

e é na vulva que a areia é mais sedenta

poro a poro vou sendo o curso de água

da tua língua demasiada e lenta

dentes e unhas rebentam como pinhas

de carnívoras plantas te é meu ventre

abro-te as coxas e deixo-te crescer

duro e cheiroso como o aloendro

    

    

in "Eros de passagem, Poesia erótica contemporânea",

Selecção e prefácio de Eugénio de Andrade,

Ed. Campo das Letras, Porto, 1997

    


 


Agosto 18 2007

    

A rapariga do sweater vermelho

    

   Para os que gostam de fruta tu tens o sabor almiscarado.

   Entre os balubas serias uma fêmea baluba cor de cera.

   No Egipto era uma flor de lótus o teu penteado

   para os insectos serás outra variedade de pêra.

   

   Na cama dos solitários andrenídeos

   és um corpo apetecido pelas abelhas

   e se em teus dedos nascer a flor dos suicídios

   és um pecado venial de unhas vermelhas,

  

   venial volumosa e branca muito odorífera

   dando claridade à sombra dos quartos de aluguer.

   Para os assassinos serás uma arma mortífera

   para os pederastas a raiva de não serem mulher.

   

   Para os anjos és talvez a alternativa

   de em ti encarnar a graça que eles têm no ar.

   É de ti mesma que estás arborizada e viva

   ou serás como as rosas apenas para ver e cheirar?

    

Natália Correia,

in "O vinho e a lira", 1966

   


 

emgestaocorrente às 14:17

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