Em gestão corrente ...como o País...

Maio 09 2008

        

   Mais uma excelente crónica de José Ricardo Costa no Jornal Torrejano de ontem.

      

Quando, há tempos, chegou a vez de apresentar Descartes nas minhas aulas de Filosofia, decidi começar por falar de D. Quixote e dos seus famosos moinhos de vento. Eu tinha a noção de o D. Quixote ser aquele livro que, embora quase ninguém tenha lido, toda a gente conhece.

Não foi por acaso que falei nele. Descartes, na brincadeira, claro, parte do princípio de que tudo o que vemos no mundo poderá ser fruto da ilusão, do sonho, da loucura, o que, diga-se de passagem, pode ter vantagens e desvantagens.

Se desanima pensar que a Monica Bellucci pode não passar de um produto da nossa febril imaginação, há também a esperança de o ministro Silva Pereira poder não existir e ser apenas um boneco da Nintendo.

Ora bem, ninguém conhecia o episódio dos moinhos de vento. Fiquei em estado de choque. Ainda tive uma réstea de esperança: Sancho Pança? Sim?...

Não. Sancho Pança era-lhes tão familiar como Witold Lutoslawski e se eu dissesse que os moinhos de vento de La Mancha eram uma versão espanhola da nossa estação do Oriente, projectados por um arquitecto espanhol chamado Santiago Calatrava, ninguém iria reagir.

Há poucos dias, noutra turma, pedi aos alunos que me entregassem uns trabalhos por correio electrónico. Os professores, agora, são obrigados a serem modernos e fica bem no currículo dizer que se usam as novas tecnologias mesmo que os alunos possam não saber ler e escrever.

Na brincadeira, disse que não queria que me enviassem vírus. Um aluno, também na brincadeira, disse que iria mandar um "cavalo de Tróia" (um tipo de vírus). Eu, ainda na brincadeira, disse que não valeria a pena pois não tinha lá em casa nenhuma Helena para resgatar.

A brincadeira acabou ali. O aluno olhou para mim como se estivesse a olhar para um pós-estruturalista e eu, para o salvar, perguntei pela guerra de Tróia. Nicles. Ulisses? Nicles. Aquiles? Nicles. Eu, já desesperado, insisti:

– Mas sabe ao menos que raio de coisa é o cavalo de Tróia?

– Sei.

Animei-me um pouco

– O que é, então? – perguntei.

– Um vírus.

Há quem chame a isto ignorância. A famosa ignorância da juventude actual. Tenho as minhas dúvidas e vou explicar porquê.

Se um português normal não souber o que foi a batalha de Aljubarrota, é ignorante. Todos os portugueses normais estudaram História e, se não sabem isso, não sabem uma coisa que seria suposto saberem. Pronto, é ignorância.

Se um estudante de arquitectura não souber quem é Nadir Afonso, é ignorante. Se um professor de Português, de Filosofia ou de Física não souberem coisas básicas relativas às suas áreas, são ignorantes.

A ignorância mede-se pelo grau de expectativas. Eu não posso considerar ignorante um agricultor que nunca ouviu falar de Descartes. Seria ignorante, sim, se não soubesse qual a melhor altura do ano para semear alfaces. Como seria ignorante um professor de Filosofia que não soubesse falar de Descartes.

O que se passa com os nossos jovens, actualmente, não é um problema de ignorância. É um problema de isolamento. Eles não podem saber aquilo de que nunca ouviram falar. Eles sabem cada vez mais o que nós não sabemos e o que nós sabemos eles sabem cada vez menos.

A culpa não é só deles. É dos pais, porque têm mais que fazer. Mas é também da escola. A escola, por um lado, deixou de valorizar o saber e o conhecimento. É cada vez mais uma escola de Estudo Acompanhado, da Formação Cívica, da Área de Projecto, aberrações pedagógicas que acabam por contaminar as outras disiplinas.

Por outro lado, os professores, numa escola que despreza o saber e o conhecimento, acabam também por desvalorizar o saber e o conhecimento. Eu sou professor de Filosofia e, hoje, não preciso de ler absolutamente nada para o poder ser. Não precisaria de ler mais nada para além da TV Guia, para ser o professor de Filosofia que me pedem para ser.

É assim que as coisas estão e já deu para perceber que é assim que vão continuar a estar. E não é nada fácil lutar contra cavaleiros perigosos que gostam de se disfarçar de românticos moinhos de vento.

josericardoccosta@gmail.com

          

Moinhos de Vento


Fevereiro 09 2008

Há uns tempos atrás, ainda no reinado de Santana Lopes, se não estou em erro, o Dr. Mário Soares disse que, caso não estivéssemos na União Europeia, já teria ocorrido um golpe militar. O dito não foi levado a sério por ninguém. No entanto, aquelas palavras deveriam ter alertado os espíritos para a crescente degradação da situação política do país. Quem frequenta a blogosfera, por exemplo, percebe que há, entre os blogues mais consultados – blogues que formam a opinião da gente da classe média entre os vinte e os quarenta anos –, muitos que fazem uma clara apologia do fim deste regime. Há uma cultura que cresce e que se instala, cultura essa que roça, muitas vezes, a apologia do autoritarismo político.

Digno de nota foi o artigo, publicado no passado sábado no Expresso, pelo general Garcia Leandro, o militar que dirige o Observatório de Segurança. O título é elucidativo: "A falta de vergonha". A que se refere o general? Ao "modo como se tem desenvolvido a vida das grandes empresas, nomeadamente da banca e dos seguros, envolvendo BCP e Banco de Portugal, incluindo remunerações dos seus administradores e respectivas mordomias, transformou-se num escândalo nacional, criando a repulsa generalizada." Refere também "a promiscuidade entre o poder político e o económico", a "falta de confiança que existe nos responsáveis políticos deste regime (sic)".

Mas o general diz mais. Não resisto a continuar as citações: "Se sinto a revolta crescente daqueles que comigo contactam, eu próprio começo a sentir que a minha capacidade de resistência psicológica a tanta desvergonha, (…), vai enfraquecendo todos os dias (sic)." E logo a seguir o general acrescenta: "Já fui convidado para encabeçar um movimento de indignação contra este estado de coisas e tenho resistido (sic)." E diz mais: "Mas a explosão social está a chegar. Vão ocorrer (sic) movimentos de cidadãos que já não podem aguentar mais o que se passa." E escreve, como uma espécie de paliativo: "É óbvio que não será pela acção militar que tal acontecerá, não só porque não resolveria o problema mas também porque o enquadramento da UE não o aceitaria; não haverá mais cardeais e generais para resolver este tipo de questões."

Parece que o Dr. Soares tinha razão. Tirando o enquadramento da UE, todas as outras condições para um golpe parecem reunidas: corrupção, políticos sem crédito, classes médias desfeitas, empobrecimento da população, insegurança e medo a crescer. A pergunta é então a seguinte: quanto vale a democracia portuguesa sem a Europa? Zero. Foi a isto que o bloco central conduziu o país. Uma crise que leve ao fim da União e a democracia portuguesa não dura dois dias. Como interpretar as palavras do general que dirige o Observatório de Segurança? Um grito de revolta? Não sejamos ingénuos. Foram um aviso. E quem te avisa teu amigo é.

        

   Nas últimas semanas tenho-me limitado a postar poesia pintura e música neste blogue.

   A siuação poliica, social e económica está de tal modo degradada que é penoso pensá-la e escrever sobre ela.

   

   Este post, do Prof. Jorge Carreira Maia, publicado no "Jornal Torrejano" desta semana aponta ao cerne da questão.

   Rapina-se, com a devida vénia.

  


A VER O MUNDO     http://averomundo-jcm.blogspot.com


 

As palavras do general


Janeiro 30 2008

Ele não fez fotografias de Portugal. Fotografou Portugal, como se de uma pessoa se tratasse, mesmo ali à sua frente, enquanto olha para o passarinho.

A primeira vez foi para mostrar a fotografia de um maneta, na praia, a sair da água todo desengonçado, com aquela cara de quem acabou de acordar com uma ressaca de bagaço. Ao lado, dentro de água, vê-se uma mulher vestida que agarra uma criança aos berros. Na altura, eu olhei para isto e vi Portugal.

O mesmo Portugal que vejo no retrato deste homem e desta mulher que acabaram de casar numa aldeia transmontana. Quem vê esta fotografia vê logo o Portugal dos anos 60, o qual não devia ser muito diferente do Portugal dos anos 30, o qual não devia ser muito diferente do Portugal do princípio do século.

Mas eu vejo esta fotografia e continuo ainda a ver o Portugal do século XXI. Imagino os filhos e os netos deste casal e vejo-os reféns desta fotografia. Como uma marca que determina geneticamente as gerações seguintes.

Vê-se logo, nesta imagem, uma clara contradição entre a mesa e as expressões vagas do casal.

Percebe-se que é dia de festa. Uma mesa cirurgicamente bem posta e preparada para uma cerimónia que se imagina farta de comida. Uma mesa orgulhosa e que não esconde uma certa vaidade, lembrando a expressão de felicidade das mulheres quando saem da cabeleireira.

Pelo contrário, o casal, pobre e analfabeto, está com um ar de exílio e de abandono. Um ar absolutamente heimatlos, o ar, não de quem acabou de sair da cabeleireira, mas de quem acabou de chegar a Paris, a cidade-luz, vindos da aldeia ainda sem luz e de onde nunca tinham saído.

Foi nos anos 80 que Portugal viu a luz da Europa a entrar pela janela. Até então, não passava de um pobre e obscuro país entalado entre o vazio da planície espanhola e o vazio do mar, cujo mapa interior está bem reflectido no rosto deste casal.

Quando Portugal se sentou à mesa para o banquete, sentiu-se orgulhoso ao lado da Alemanha, da França, da Inglaterra, da Holanda, de todos aqueles loiros de olhos azuis que conhecia dos telejornais e das praias. Sentiu que entrara finalmente na Europa.

Mas mais do que a luz da Europa a entrar pela janela foi o dinheiro da Europa a entrar nos bancos e a sair pelos multibancos. Não uma janela de vidro e com vista para o exterior mas uma janela de oportunidades perdidas.

Portugal é, hoje, um país com uma mesa farta: um país de telemóveis, plasmas do melhor, computadores para dar e vender, cozinha equipada, carro à porta, passeios dominicais ao shopping. Eu vejo os filhos e os netos deste casal e vejo-os já na cidade, num T3 de Chaves, Bragança ou Vinhais, uma qualquer cidade de Trás-os-Montes da Europa.

A mesa dos filhos e netos continua, pois, farta e bem posta. Mas são ainda os filhos dos seus pais e os netos dos seus avós que um dia irão ser os avós dos seus netos. Já sabem ler e escrever, claro, mas não sabem ler e escrever como seria suposto saber ler e escrever um europeu normal do século XXI.

O rosto deste casal é o rosto de Portugal depois das especiarias da Índia e dos escravos de África. O rosto de Portugal depois do ouro do Brasil. O rosto de Portugal depois dos fundos europeus.

O rosto de quem está ao mesmo tempo deslumbrado e atónito perante uma mesa opulenta, para um dia de festa que acaba sempre cedo demais.

Vi, na semana passada, no telejornal, a inauguração do casino de Chaves. Mal as portas abriram, entraram centenas de pessoas que aguardavam lá fora, ansiosas, a abertura.

Não, não eram jogadores como aqueles de Monte Carlo, de papillon e cabelo com brilhantina puxado para trás e a passar o dedo pelos lábios como o gigolo de óculos escuros do Martini Cinzano. Eram os flavienses puros e duros que, ululantes, entravam no casino como se entrassem no piquenicão da Rádio Renascença, na Ovibeja ou na Fatacil. Novos e velhos.

Quem sabe se, no meio desta multidão não estaria também o casal desta fotografia. Bem gostava de os ver agora, já velhos, assim como quem viu a menina afegã da capa da National Geographic, muitos anos depois.

Acho que os iria encontrar ainda com o mesmo ar aparvalhado de 1964, só que, desta vez, não perante uma mesa para comer, mas uma mesa para jogar ou uma slot machine cheia de luz, a mesma luz do shopping por onde passarão no domingo à tarde.

Eu vejo o ar aparvalhado deste casal e vejo o ar aparvalhado de Portugal. Pobre perante a riqueza, rico perante a pobreza.

Eu disse que isto era um retrato de Portugal.

josericardoccosta@gmail.com

  

  

   Mais um excelente texto de José Ricardo Costa publicado no "Jornal Torrejano" da semana passada e que não resisti a rapinar.

   Um abraço ao Professor JRCosta.

 

A mesa


Setembro 27 2007

O Milagre

Está escrito: «Destruirei a sabedoria dos sábios e reprovarei a prudência dos prudentes». Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o investigador deste século? Porventura, Deus não considerou louca a sabedoria deste mundo? 1ª Carta aos Coríntios, 1, 18    

                  

           

Estava eu desesperado, sem assunto para a crónica desta semana, quando sou salvo por esta fotografia que aqui vê, vinda no Público.

Não, não venho aqui explorar a profunda, fervorosa e catolicíssima devoção do engenheiro. A fé é como gostar de telenovelas, comer sardinhas assadas com batatas fritas, ou ser do Sporting: cada um sabe da si.

Também não venho aqui explorar a presença de um padre, no pleno exercício das suas funções, dentro de uma escola pública. É normal. Se bem se lembram, o engenheiro foi um devoto ministro do outro engenheiro que gostava mais da Nossa Senhora dos Aflitos à chuva, numa procissão, do que de Mário Soares coberto de chocolate e chantilly em cima de um pão de ló.

O que esta fotografia tem de impressionante é o facto de coincidir com um momento ímpar da nossa História contemporânea: aquele em que vários ministros, percorrendo Portugal de lés a lés, andaram a distribuir computadores em cerimónias cuja pompa e circunstância parecia a dos Globos de Ouro da SIC, com a pequena diferença de, no lugar de Bárbara Guimarães, termos a engenheira Maria de Lurdes, o engenheiro Vieira da Silva, o engenheiro Alberto Costa ou o engenheiro Rui Pereira.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi tratar-se de uma acção de propaganda. O que até não tem nada de mal. Se o major Valentim Loureiro oferece micro-ondas ao povo, parece-me justo o governo não querer ficar atrás.

Mas isto é muito mais do que propaganda ou simples bênção de uma qualquer EB2,3, perdida algures, no Portugal profundo. É o catolicismo tridentino no seu esplendor aplicado à educação.

Como toda a gente sabe, o catolicismo é uma religião muito mais sincrética do que o protestantismo. Alguém imagina uma Cova da Iria nos arredores do Estocolmo? Ou um holandês, rastejando no chão, a agradecer uma promessa à mãe de Jesus? Ou um jogador de futebol dinamarquês a benzer-se quando pisa o relvado?

Uma das marcas principais da fé católica é a crença em milagres. Ora, esse é também um dos aspectos que têm marcado a ideologia dos nossos governantes a respeito da educação.

Quando o engenheiro entra numa escola, com o mesmo ar alucinado que Moisés devia ter quando desceu o Monte Sinai depois de ter estado com Deus, para dar computadores ao rebanho, está a dar um sinal de grande catolicidade.

Aliás, o nosso engenheiro deve achar-se tão próximo de Deus que, fosse ele da Maçonaria, Deus deixaria de ser o Grande Arquitecto para passar a ser o Grande Engenheiro.

Esse sinal é precisamente o contrário do que encontramos na ética protestante. Porquê?

Nos países protestantes, que o nosso ideólogo-engenheiro tanto admira, o sucesso é feito à custa de método, rigor, disciplina e exigência. Em Portugal, pelo contrário, segue-se a tese do milagre. Talvez por ouvirem falar tanto no milagre alemão que fez de um país destruído como a Alemanha, uma potência económica.

Em Portugal, parte-se do princípio de que basta chapar os olhos de uma criança em frente a um ecrã de computador ou colocar na parede da sala de aula um quadro que mexe, para que as nuvens do céu se abram e os raios do desenvolvimento iluminem a pátria.

Claro que é irrelevante chegar ao fim do secundário sem saber ler nem escrever. Ou entrar num curso de engenharia a fazer contas de somar com os dedos. Ou ir para um curso de Direito com o nível cultural de Rui Rio.

Ou seja, em Portugal, é a fé, o crer, que nos salva, e não a filosofia, a matemática, a física ou a história. Como grande católico que é, e tal como S. Paulo, o engenheiro prefere a loucura da cruz à louca e vã sabedoria deste mundo.

Nós olhamos para esta fotografia e percebemos logo em que mãos está a escola portuguesa. Uma das mãos é a dos políticos, que descem dos seus gabinetes até ao país real, cheios de bênçãos burocráticas e muita fé no destino. A outra é a mão de Deus, de cujos misteriosos e insondáveis desígnios ficamos reféns.

Se reparar bem, vemos ainda um jornalista com uma câmara de filmar para que tudo fique registado à hora do telejornal. Se o Vaticano teve o seu Miguel Ângelo ou o seu Rafael para registarem a glória de Deus, este governo tem as câmaras de filmar para incensar a sua infinita Graça.

A nós, professores, que damos aulas e ali não aparecemos, só nos resta pedir a Deus que tenha, mas tenha mesmo, muita piedade de nós.

jr_costa@clix.pt

   

   

   O Jornal Torrejano, semanário de Torres Novas conta com dois excelentes cronistas semanais.

   Um deles, o Prof. José Ricardo Costa, "brinca", semanalmente, com as nossas misérias, miudinhas e lusitanas misérias, de uma maneira que já não se via desde os tempos de Artur Portela Filho no "Jornal Novo", espetando farpas certeiras no no triste quotidiano deste triste país.

   É rara a semana que não me apeteça rapinar a sua crónica para o meu blogue.

   Nunca calhou.

   Mas hoje não resisto a rapinar a publicada na edição do dia 20 do corrente mês.

   Com as devidas vénias ao autor e ao jornal.

   



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