Em gestão corrente ...como o País...

Setembro 02 2009
 

 


 


Fevereiro 16 2009

   

Há dias

    

   Há dias em que julgamos

   que todo o lixo do mundo nos cai

   em cima. Depois

   ao chegarmos à varanda avistamos

   as crianças correndo no molhe 

   enquanto cantam.

   Não lhes sei o nome. Uma

   ou outra parece-se comigo.

   Quero eu dizer: com o que fui

   quando cheguei a ser

   luminosa presença da graça,

   ou da alegria.

   Um sorriso abre-se então

   num verão antigo.

   E dura, dura ainda.

    

Eugénio de Andrade, in

"Os lugares do lume", 1998

      


 


Fevereiro 08 2009

   

Canção

  

   Tu eras neve.

   Branca neve acariciada.

   Lágrima e jasmim

   no limiar da madrugada.

   

   Tu eras água.

   Água do mar se te beijava.

   Alta torre, alma, navio,

   adeus que não começa nem acaba.

   

   Eras o fruto

   nos meus dedos a tremer.

   Podíamos cantar

   ou voar, podíamos morrer.

    

   Mas do nome

   que maio decorou,

   nem a cor

   nem o gosto me ficou.

    

Eugénio de Andrade, in

"Até amanhã"

     


 

emgestaocorrente às 12:41

Dezembro 27 2008

   

Algumas imagens do inverno

   

    

Chega mais cedo;

conheço-lhe os passos:

já muita vez aqueceu as mãos

ao lume da minhas.

Vai demorar-se;

sacudir a lama, remendar

os sapatos, tirar o sal

que se juntou em redor dos lábios.

Entre o silêncio e o falar

não há senão

espaço para anoitecer.

Tão pesadas, as folhas do ar.

  

Eugénio de Andrade, in

"Ofício de paciência", 1994

    


 

emgestaocorrente às 21:44

Dezembro 04 2008

 

Conselho
 
 
Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

 

    

       

Eugénio de Andrade, in

"Os amantes sem dinheiro"

     


 

emgestaocorrente às 17:30

Novembro 30 2008

  

Soneto de amor

   

Não me peças palavras, nem baladas,

Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,

Deixa cair as pálpebras pesadas,

E entre os seios me apertes sem receio.

   

Na tua boca sob a minha, ao meio,

Nossas línguas se busquem, desvairadas...

E que os meus flancos nus vibrem no enleio

Das tuas pernas ágeis e delgadas.

  

E em duas bocas uma língua..., - unidos,

Nós trocaremos beijos e gemidos,

Sentindo o nosso sangue misturar-se.

  

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!

Enterra-os bem nos meus; não digas nada...

Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

          

      

José Régio, in

"Eros de passagem", Poesia Erótica Contemporânea,

selecção de Eugénio de Andrade, Campo das Letras, Porto, 1997

     


 


Novembro 11 2008

  

Teatro dos dias

    

   

Ninguém cheira melhor

nestes dias

do que a terra molhada: é outono.

Talvez por isso a luz,

como quem gosta de falar

da sua vida, se demora à porta,

ou então passa as tardes à janela

confundindo o crepúsculo

com as ruínas

de cal mordidas pelas silvas.

Quando se vai embora o pano desce

rapidamente.

  

 

Eugénio de Andrade, in

"Ofício de paciência", 1994

    


 


Setembro 08 2008

     

   De férias esta semana, no Alto Alentejo, pois claro!, com um calor que não deve haver noutras regiões, 4 poemas eróticos, de rajada!

   Ora toma!

    

      

José Gomes Ferreira

    

De: Café

  

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,

mal viu a menina atavessar a rua,

saltou num ímpeto de besouro

e despiu-a toda...

   

E a Que-Sempe-Tanto-Se-Recata

ficou nua,

sonambulamente nua,

com um seio de ouro

e outro de prata.

    

    

Vasco Graça Moura

  

5.    vai-se a lasciva mão

   

vai-se a lasciva mão devagarinho

no biquinho do peito modelando

como nuns versos conhecidos quando

uma mulher a meio do caminho

   

era de vento e nuvens, sombras, vinho,

e sonoras risadas como um bando.

os dedos lestos vão desenredando

roupa,cabelos, fitas, desalinho.

  

a noite desce e a nudez define-a

por contrastes de luz e de negrume

ponto por ponto, alínea por alínea.

  

memória e amor e música e ciúme

transformados nos cachos da glicínia,

macerando no verão sombra e perfume.   

   

  

David Mourão-Ferreira

    

Presídio

 

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.

Que dizer do pescoço, às vezes mármore,

às vezes linho, lago, tronco de árvore,

nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

    

E o ventre, inconsistente como o lodo?...

E o morno gradeamento dos teus braços?

Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:

é também água, terra, vento, fogo...

   

É sobretudo sombra à despedida;

onda de pedra em cada reencontro;

no parque da memóra o fugidio

  

vulto da Primavera em pleno Outono...

Nem só de carne é feito este presídio,

pois no teu corpo existe o mundo todo!

     

    

Natália Correia

   

Cosmocópula

    

O corpo é praia a boca é a nascente

e é na vulva que a areia é mais sedenta

poro a poro vou sendo o curso de água

da tua língua demasiada e lenta

dentes e unhas rebentam como pinhas

de carnívoras plantas te é meu ventre

abro-te as coxas e deixo-te crescer

duro e cheiroso como o aloendro

    

    

in "Eros de passagem, Poesia erótica contemporânea",

Selecção e prefácio de Eugénio de Andrade,

Ed. Campo das Letras, Porto, 1997

    


 


Julho 15 2008

   Via "Corte na Aldeia", um poema de Eugénio de Andrade

Sabor a barcos e bruma

 




Procura a maravilha.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.



Eugénio de Andrade

 

 


 

emgestaocorrente às 20:45

Abril 10 2008

     

As primeiras chuvas

     

As primeiras chuvas estavam tão perto

de ser música

que esquecemos que o verão acabara:

uma súbita alegria,

súbita e bárbara, subia e coroava

a terra de água,

e deus, que tanto demorara,

ardia no coração da palavra.

     

Eugénio de Andrade, in

"Rente ao dizer"

      


  

emgestaocorrente às 19:33

Janeiro 06 2008

  

Não canto porque sonho.

Canto porque és real.

Canto o teu olhar maduro,

o teu sorriso puro,

a tua graça animal.

     

Canto porque sou homem.

Se não cantasse seria

somente um bicho sadio

embriagado na alegria

da tua vinha sem vinho.

   

Canto porque o amor apetece.

Porque o feno amadurece

nos teus braços deslumbrados.

Porque o meu corpo estremece

por vê-los nus e suados.

     

Eugénio de Andrade,

in " As mãos e os frutos", 1948 (Poesia 2000 - Fundação Eugénio de Andrade)

   


emgestaocorrente às 22:19

Dezembro 22 2007

     

O muro é branco

e bruscamente

sobre o branco do muro cai a noite.

    

Há um cavalo próximo do silêncio,

uma pedra fria sobre a boca,

pedra cega de sono.

  

Amar-te-ia se viesses agora

ou inclinasses

o teu rosto sobre o meu tão puro

e tão perdido,

ó vida.

    

Eugénio de Andrade, in

"Matéria Solar"

     


  

emgestaocorrente às 21:15

Dezembro 22 2007

      

É um lugar ao sul, um lugar onde

a cal

amotinada desafia o olhar.

Onde viveste. Onde às vezes no sono

vives ainda. O nome prenhe de água

escorre-te da boca.

Por caminhos de cabras descias

à praia, o mar batia

    

naquelas pedras, nestas sílabas.

Os olhos perdiam-se afogados

no clarão

do último ou do primeiro dia.

  

Era a perfeição.

   

Eugénio de Andrade, in

"Branco no Branco"

  

 


 

emgestaocorrente às 21:01

Outubro 29 2007

 

Outra vez o pátio vidrado da manhã.

Vais surgir e dizer: eu vi um barco.

Era quando aos lábios me chegava

a porosa argila doutros lábios.

Estava então a caminho de ser ave.

    

Eugénio de Andrade,

in "Matéria solar"

 


 

emgestaocorrente às 19:50

Agosto 29 2007

    

As amoras

    

O meu país sabe às amoras bravas

no verão.

Ninguém ignora que não é grande,

nem inteligente, nem elegante o meu país,

mas tem esta voz doce

de quem acorda cedo para cantar nas silvas.

Raramente falei do meu país, talvez

nem goste dele, mas quando um amigo

me traz amoras bravas

os seus muros parecem-me brancos,

reparo que também no meu país o céu é azul.

    

Eugénio de Andrade

emgestaocorrente às 19:17

Junho 21 2007

        

Sei que estou vivo e cresço sobre a terra.

Não porque tenha mais poder,

nem mais saber, nem mais haver.

Como lábio que suplica outro lábio,

como pequena e branca chama

de silêncio,

como sopro obscuro do primeiro crepúsculo,

sei que estou vivo, vivo

sobre o teu peito, sobre os teus flancos,

e cresço para ti.

    

Eugénio de Andrade,

in "Cumplicidades do Verão"

    

 


 

emgestaocorrente às 22:21

Abril 26 2007

            

   

Cansado de ser homem durante o dia inteiro

chego à noite com os olhos rasos de água.

Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,

entrar dentro de ti como um bosque.

   

É a hora de fazer milagres:

posso ressuscitar os mortos e trazê-los

a este quarto branco e despovoado,

onde entro sempre pela primeira vez,

para falarmos das grandes searas de trigo

afogadas na luz do amanhecer.

     

Posso prometer uma viagem ao paraíso

a quem se estender ao pé de mim,

ou deixar uma lágrima nos meus olhos

ser toda a nostalgia das areias.

    

   

Eugénio de Andrade

in "As palavras interditas"

   

 


 

emgestaocorrente às 22:48

Abril 15 2007

             

      

Assim eu queria o poema:

fremente de luz, áspero de terra,

rumoroso de águas e de vento.

    

Eugénio de Andrade

in "Ostinato rigore"

            

               


emgestaocorrente às 22:45

Março 18 2007

               

Vê como o verão

súbitamente se faz água no teu peito,

                  

e a noite se faz barco,

      

e minha mão marinheiro.

       

Eugénio de Andrade

in "Obscuro dominio"

            

 


 

emgestaocorrente às 18:44

Março 18 2007

            

II

Cantas. E fica a vida suspensa.

É como se um rio cantasse:

em redor é tudo teu;

mas quando cessa o teu canto

o silêncio é todo meu.

       

Eugénio de Andrade

in "As mãos e os frutos"

 


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