Em gestão corrente ...como o País...

Abril 25 2008

      

Este homem que esperou

   

Este homem que esperou

humilde em sua casa

que o sol lavasse a cara

ao seu desgosto

  

Este homem que esperou

à sombra de uma árvore

mudar a direcção

ao seu pobre destino

    

Este homem que pensou

com uma pedra na mão

transformá-la num pão

transformá-la num beijo

    

Este homem que parou

no meio da sua vida

e se sentiu mais leve

que a sua própria sombra

   

António Ramos Rosa, in

"Viagem através de uma nebulosa", Ed. Ática, 1960

    


 

  

emgestaocorrente às 11:26

Agosto 18 2007

    

O poema que a seguir se publica pertence a um livro editado em 1960, em pleno sufoco salazarengo.

Porque será que, repentinamente, soa tão actual?

A todos os funcionários, especialmente aos públicos, vitimas de ataques de uma ferocidade que não existia nem sequer antes do 25 de Abril.

    

 O funcionário cansado

  

   A noite trocou-me os sonhos e as mãos

   dispersou-me os amigos

   tenho o coração confundido e a rua é estreita

   estreita em cada passo

   e as casas engolem-nos

   sumimo-nos

   estou num quarto só num quarto só

   com os sonhos trocados

   com toda a vida às avessas a arder num quarto só

  

   Sou um funcionário apagado

   um funcionário triste

   a minha alma não acompanha a minha mão

   Débito e Crédito Débito e Crédito

   a minha alma não dança com os números

   tento escondê-la envergonhado

   o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente

   e debitou-me na minha conta de empregado

   Sou um funcionário cansado dum dia exemplar

   Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

   Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

    

   Soletro velhas palavras generosas

   Flor rapariga amigo menino

   irmão beijo namorada

   mãe estrela música

   São as palavras cruzadas do meu sonho

   palavras soterradas na prisão da minha vida

   isto todas as noites do mundo uma noite só comprida

   num quarto só

     

António Ramos Rosa,

in "Viagem através duma nebulosa", 1960

   


 


Abril 12 2007

        

    

Quando o teu ventre era uma pátria

de cereal e uvas

e se ouvia a lentidão da chuva

sobre as tuas espáduas de basalto.

Quando alimentavas com pão verde

os espectros do vidro

e em teu redor esvoaçavam as aves

que vinham do mar e da montanha.

Quando eras a plenitude da argila

incendiada pelo verão,

todas as janelas estavam abertas, Cerealina,

para a juventude magnética do mar.

                

             

António Ramos Rosa,

in "Nomes de ninguém", 1997

    

 


 

emgestaocorrente às 22:50

Fevereiro 10 2007

                                       

                

Quando te vi senti um puro tremor de primavera

e a voluptuosa brancura de um perfume

No meu sangue vogavam levemente

anémonas estrelas barcarolas

O silêncio que te envolvia era um grande disco branco

e o teu rosto solar tinha a bondade de um barco

e a pureza do trigo e de suaves açucenas

Quando descobri o teu seio de luminosa lua

e vi o teu ventre largamente branco

senti que nunca tinha beijado a claridade da terra

nem acariciara jamais uma guitarra redonda

Quando toquei a trémula andorinha do teu sexo

a adolescência do mundo foi um relâmpago no meu corpo

E quando me deitei a teu lado foi como se todo o universo

se tornasse numa voluptuosa arca de veludo

Tão lentamente pura e suavemente sumptuosa

foi a tua entrega que eu renasci inteiro como um anjo do sol

 

António Ramos Rosa,

in "O teu rosto", 1994


emgestaocorrente às 15:09

Fevereiro 10 2007

 

Em qualquer parte um homem

discretamente morre.

 

Ergueu uma flor.

Levantou uma cidade.

 

Enquanto o sol perdura

ou uma nuvem passa

surge uma nova imagem.

 

Em qualquer parte um homem

abre o seu punho e ri.

 

António Ramos Rosa,

in "O grito claro", 1958

 


 

emgestaocorrente às 14:51

Janeiro 23 2007

 

 

 

Para um amigo tenho sempre um relógio

esquecido em qualquer fundo de algibeira.

Mas esse relógio não marca o tempo inútil.

São restos de tabaco e de ternura rápida.

É um arco-iris de sombra, quente e trémulo.

É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

 

António Ramos Rosa

in "viagem através de uma nebulosa", 1960

 


 

emgestaocorrente às 12:47

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