Em gestão corrente ...como o País...

Outubro 20 2007

   

   Manhã vem chegando devagar, sonolenta; três quartos de hora de atraso, funcionária relapsa.

   Demora-se entre as nuvens, preguiçosa, abre a custo os olhos sobre o campo, ai que vontade de dormir sem despertador, dormir até não ter mais sono!

   Se lhe acontecer arranjar marido rico, a Manhã não mais acordará antes das onze e olhe lá.   

   Cortinas nas janelas para evitar a luz violenta, café servido na cama.

   Sonhos de donzela casadoira, outra a realidade da vida, de uma funcionária subalterna, de rígidos horários.

   Obrigada a acordar cedíssimo para apagar as estrela que a Noite acende com medo do escuro.

   A Noite é uma apavorada, tem horror às trevas.

   Com um beijo, a Manhã apaga cada estrela enquanto prossegue a caminhada em direcção ao horizonte.

   Semi-adormecida, bocejando, acontece-lhe esquecer algumas sem apagar.

   Ficam as pobres acesas na claridade, tentando inútilmente brilhar durante o dia, uma tristeza.

...

   

Jorge Amado, abertura do livro "O Gato Malhado E A Andorinha Sinhá - uma história de amor", D. Quixote, 9ª edição, 1999.

(escrito em 1948 para o filho João Jorge, no seu 1º aniversário)

  


emgestaocorrente às 11:56

é de uma poesia que nao tem tamanho
isnaldo cruz a 20 de Abril de 2014 às 00:44

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