Em gestão corrente ...como o País...

Setembro 27 2007

O Milagre

Está escrito: «Destruirei a sabedoria dos sábios e reprovarei a prudência dos prudentes». Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o investigador deste século? Porventura, Deus não considerou louca a sabedoria deste mundo? 1ª Carta aos Coríntios, 1, 18    

                  

           

Estava eu desesperado, sem assunto para a crónica desta semana, quando sou salvo por esta fotografia que aqui vê, vinda no Público.

Não, não venho aqui explorar a profunda, fervorosa e catolicíssima devoção do engenheiro. A fé é como gostar de telenovelas, comer sardinhas assadas com batatas fritas, ou ser do Sporting: cada um sabe da si.

Também não venho aqui explorar a presença de um padre, no pleno exercício das suas funções, dentro de uma escola pública. É normal. Se bem se lembram, o engenheiro foi um devoto ministro do outro engenheiro que gostava mais da Nossa Senhora dos Aflitos à chuva, numa procissão, do que de Mário Soares coberto de chocolate e chantilly em cima de um pão de ló.

O que esta fotografia tem de impressionante é o facto de coincidir com um momento ímpar da nossa História contemporânea: aquele em que vários ministros, percorrendo Portugal de lés a lés, andaram a distribuir computadores em cerimónias cuja pompa e circunstância parecia a dos Globos de Ouro da SIC, com a pequena diferença de, no lugar de Bárbara Guimarães, termos a engenheira Maria de Lurdes, o engenheiro Vieira da Silva, o engenheiro Alberto Costa ou o engenheiro Rui Pereira.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi tratar-se de uma acção de propaganda. O que até não tem nada de mal. Se o major Valentim Loureiro oferece micro-ondas ao povo, parece-me justo o governo não querer ficar atrás.

Mas isto é muito mais do que propaganda ou simples bênção de uma qualquer EB2,3, perdida algures, no Portugal profundo. É o catolicismo tridentino no seu esplendor aplicado à educação.

Como toda a gente sabe, o catolicismo é uma religião muito mais sincrética do que o protestantismo. Alguém imagina uma Cova da Iria nos arredores do Estocolmo? Ou um holandês, rastejando no chão, a agradecer uma promessa à mãe de Jesus? Ou um jogador de futebol dinamarquês a benzer-se quando pisa o relvado?

Uma das marcas principais da fé católica é a crença em milagres. Ora, esse é também um dos aspectos que têm marcado a ideologia dos nossos governantes a respeito da educação.

Quando o engenheiro entra numa escola, com o mesmo ar alucinado que Moisés devia ter quando desceu o Monte Sinai depois de ter estado com Deus, para dar computadores ao rebanho, está a dar um sinal de grande catolicidade.

Aliás, o nosso engenheiro deve achar-se tão próximo de Deus que, fosse ele da Maçonaria, Deus deixaria de ser o Grande Arquitecto para passar a ser o Grande Engenheiro.

Esse sinal é precisamente o contrário do que encontramos na ética protestante. Porquê?

Nos países protestantes, que o nosso ideólogo-engenheiro tanto admira, o sucesso é feito à custa de método, rigor, disciplina e exigência. Em Portugal, pelo contrário, segue-se a tese do milagre. Talvez por ouvirem falar tanto no milagre alemão que fez de um país destruído como a Alemanha, uma potência económica.

Em Portugal, parte-se do princípio de que basta chapar os olhos de uma criança em frente a um ecrã de computador ou colocar na parede da sala de aula um quadro que mexe, para que as nuvens do céu se abram e os raios do desenvolvimento iluminem a pátria.

Claro que é irrelevante chegar ao fim do secundário sem saber ler nem escrever. Ou entrar num curso de engenharia a fazer contas de somar com os dedos. Ou ir para um curso de Direito com o nível cultural de Rui Rio.

Ou seja, em Portugal, é a fé, o crer, que nos salva, e não a filosofia, a matemática, a física ou a história. Como grande católico que é, e tal como S. Paulo, o engenheiro prefere a loucura da cruz à louca e vã sabedoria deste mundo.

Nós olhamos para esta fotografia e percebemos logo em que mãos está a escola portuguesa. Uma das mãos é a dos políticos, que descem dos seus gabinetes até ao país real, cheios de bênçãos burocráticas e muita fé no destino. A outra é a mão de Deus, de cujos misteriosos e insondáveis desígnios ficamos reféns.

Se reparar bem, vemos ainda um jornalista com uma câmara de filmar para que tudo fique registado à hora do telejornal. Se o Vaticano teve o seu Miguel Ângelo ou o seu Rafael para registarem a glória de Deus, este governo tem as câmaras de filmar para incensar a sua infinita Graça.

A nós, professores, que damos aulas e ali não aparecemos, só nos resta pedir a Deus que tenha, mas tenha mesmo, muita piedade de nós.

jr_costa@clix.pt

   

   

   O Jornal Torrejano, semanário de Torres Novas conta com dois excelentes cronistas semanais.

   Um deles, o Prof. José Ricardo Costa, "brinca", semanalmente, com as nossas misérias, miudinhas e lusitanas misérias, de uma maneira que já não se via desde os tempos de Artur Portela Filho no "Jornal Novo", espetando farpas certeiras no no triste quotidiano deste triste país.

   É rara a semana que não me apeteça rapinar a sua crónica para o meu blogue.

   Nunca calhou.

   Mas hoje não resisto a rapinar a publicada na edição do dia 20 do corrente mês.

   Com as devidas vénias ao autor e ao jornal.

   



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