Em gestão corrente ...como o País...

Março 26 2007

                  

(nestes tempos em que parece que a TV pública(!) aposta em baralharar os mais novos e recuperar (branqueando!) um passado doloroso  e vergonhoso para o povo português, retomo este poema de Manuel Alegre , para que ninguém se esqueça  da fome, do analfabetismo, das prisões politicas, da fuga à guerra colonial, da emigação ilegal massiva (1 milhão de emigrantes ilegais no inicio dos anos 70), fosse por motivos económicos fosse por motivos politicos )

         

              

Solitário

por entre a gente eu vi o meu país.

Era um perfil

de sal

e abril.

Era um puro país azul e proletário.

Anónimo passava. E era Portugal

que passava por entre a gente e solitário

nas ruas de Paris.

     

Vi minha pátria derramada

na Gare de Austerlitz. Eram cestos

e cestos pelo chão. Pedaços

do meu país.

Restos.

Braços.

Minha pátria sem nada

despejada nas ruas de Paris.

     

E o trigo?

E o mar?

Foi a terra que não te quiz

ou alguém que roubou as flores de abril?

Solitário por entre a gente caminhei contigo

os olhos longe como o trigo e o mar.

Éramos cem duzentos mil?

E caminhávamos. Braços e mãos para alugar

meu Portugal nas ruas de Paris.

      

Manuel Alegre

    

 


 

emgestaocorrente às 19:28

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