Em gestão corrente ...como o País...

Novembro 12 2011

  

Má consciência

 

  

O adjectivo

dá-me de comer.

Se não fora ele

o que houvera de ser?

  

Vivo de acrescentar às coisas

o que elas não são.

Mas é por cálculo,

não por ilusão.

 

  

Alexandre O'Neill,

in "De ombro na ombreira", Lisboa, 1969


emgestaocorrente às 23:02

Novembro 06 2011

 

Se...

 

 

Se é possível conservar a juventude

Respirando abraçado a um marco do correio;

Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora e a mordeu

Deixando-a em estado grave;

Se ao descer do avião a Duquesa do Quente

Pôs marfim a sorrir;

Se Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;

Se na América um jovem de cem anos

Veio de longe ver o Presidente

A cavalo na mãe;

Se um bode recebe o próprio peso em aspirina

E a oferece aos hospitais do seu país;

Se o engenheiro sempre não era engenheiro

E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;

Se reentrante, protuberante, perturbante,

Lola domina ainda os portugueses;

Se o Jorge (o "ponto" do Jorge!) tentou beber naquela noite

O presunto de Chaves por uma palhinha

E o Eduardo não lhe ficou atrás

Ao sair com a lagosta pela trela;

Se "ninguém me ama porque tenho mau hálito

E reviro os olhos como uma parva";

Se Mimi Tavessuras já não vem a Lisboa

Cantar com o Alberto...

  

...Acaso o nosso destino, tac, vai mudar?

  

  

  

Alexandre O'Neill,

in " no Reino da Dinamarca", 1958


 

emgestaocorrente às 17:07

Novembro 04 2011

As rosas

 

 

Quando à noite desfolho e trinco as rosas

É como se prendesse entre os meus dentes

Todo o luar das noites transparentes,

Todo o fulgor das tardes luminosas,

O vento bailador das Primaveras,

A doçura amarga dos poentes,

E a exaltação de todas as esperas.

 

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen,

in "Obra Poética", Ed Caminho, Lisboa, 2010


 



Novembro 02 2011

  

Esta gente

 

 

 

Esta gente cujo rosto

Às vezes luminoso

E outras vezes tosco

 

Ora me lembra escravos

Ora me lembra reis

 

Faz renascer meu gosto

De luta e de combate

Contra o abutre e a cobra

O porco e o milhafre

 

Pois a gente que tem

O rosto desenhado

Por paciência e fome

É a gente em quem

Um país ocupado

Escreve o seu nome

  

E em frente desta gente

Ignorada e pisada

Como a pedra do chão

E mais do que a pedra

Humilhada e calcada

 

Meu canto se renova

E recomeço a busca

De um país liberto

De uma vida limpa

E de um tempo justo

  

Sophia de Mello Breyner Andresen,

in "Geografia", de 1967, incluído em "Obra Poética", Ed. caminho, Lisboa, 2010

 


 


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