Em gestão corrente ...como o País...

Outubro 31 2008

   

   Francisco José Viegas no "A Origem das Espécies" tem esta ideia brilhantemente irónica mas que encerra um grande perigo:

o inefável e indescritível Valtr Lemos, Secretário de Estado socialista (sim esse vereador da Câmara de Penamacor pelo CDS, que perdeu o mandato por faltas injustificadas!!!) pode julgar que é a sério e pô-la em prática!!!

    

   

31 de Outubro de 2008
||| Chumbos.
     

O Conselho Nacional da Educação vem propor que acabem os chumbos até ao 9.º ano – é uma medida e tanto, que o Sr. Secretário de Estado Valter Lemos festeja com as mãos ambas, uma vez que parece ser ele o encarregado de velar pelas estatísticas. Acho que o Sr. Secretário Lemos está a ser modesto em matéria de “mecanismos de alternativa a chumbos”. Defendo que, na hora do baptismo, perdão, no registo civil, seja atribuído logo o 9.º ano a cada pequeno cidadão. Assim, evitam-se logo os chumbos. Parece, além do mais, que o chumbo é visto como uma tentativa de responsabilizar os alunos e os pais, o que – no entender do Sr. Secretário Lemos e do sempre espantoso Albino Almeida, da confederação dos paizinhos – não pode acontecer. Sim, de facto, onde é que isto se viu? Na Finlândia?

[Da coluna do Correio da Manhã.]


 


 

[ Publicado por FJV ]

 


Outubro 30 2008

    

     


 

emgestaocorrente às 22:00

Outubro 30 2008

   

   Concordo com José Ricardo Costa em Ponteiros Parados

  

CAMARADA LAVOISIER

 
Se quisermos compreender a tragédia do ensino em Portugal, teremos de regredir até ao passado revolucionário, maoista e estalinista da actual ministra da educação.
 
A ilusão comunista que, na companhia do nazismo, conduziu aos maiores pesadelos do século XX, partia do pressuposto de que a realidade poderia ser transformada através de uma planificação laboratorialmente conduzida. A realidade podia ser a fome, a miséria, a repressão, mas o delírio utópico de muitos via nisso uma espécie de dores de crescimento, normais no caminho para o paraíso.

As estatísticas, os números, a propaganda, mostravam a superioridade do modelo, concebido por iluminados que não percebiam nada da realidade mas a quem as verdades eram sobrenaturalmente reveladas. Só que a prática mostrava exactamente o contrário.

A farsa que existe hoje no actual sistema de ensino resulta de uma ideologia e atitude mental muito semelhante. Pessoas que fizeram cursos, depois mestrados, depois doutoramentos, que escreveram livros e vão a colóquios e conferências, consideram que, através de leis e mais leis e mais leis, ou de manipulações burocráticas, a realidade atinge a perfeição desejada. Depois, o desejo de ver uma determinada realidade faz-nos ver essa mesma realidade ainda que para isso se faça muita batota e malabarismos estatísticos.

O Estalinismo é como a natureza. Não ganhou nem perdeu. Apenas se transformou.

   

 

 


Outubro 30 2008

    

Ora tomem, para pensarem durante o fim de semana:

(rapinado, com a devida vénia, do Blasfémias)

 

E como se transforma num problema de injustiça social o falhanço das políticas ditas de apoio aos mais desfavorecidos

Publicado por helenafmatos em 30 Outubro, 2008

     

Lendo este artigo do JN Ranking favorece escolas de alunos de classes privilegiadas fica-se ciente que há que acabar com esta injustiça, esta iníqua diferenciação social.

Aliás o artigo até cita um ”investigador da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e um dos primeiros participantes no programa de avaliação das escolas oficiais”, Para Pedro Oliveira, que defende que “seria interessante se os rankings mostrassem a origem social dos alunos para se perceber o posicionamento das escolas nas listagens”Um outro investigador citado pelo JN, “Ivo Domingues, sociólogo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, põe a tónica do êxito dos colégios privados na continuidade que proporcionam às classes média e alta de manterem os seus privilégios sociais e culturais.” Mais um bocadinho e estamos a defender o fim do ensino privado, essa estratégia das «classes média e alta de manterem os seus privilégios sociais e culturais.»

Provavelmente o ensino privado é isso neste momento. Ou seja qualquer pessoa com dois dedos de informação tem sérias reservas  em deixar os seus filhos frequentarem uma coisa apalhaçada, onde cada vez se ensina menos e pode nem se lhes garantir a segurança. Onde se um menino se quiser levantar, desatar aos pontapés, chamar isto e aquilo aos professores tal não passa duma performance expressiva. E onde cada vez mais a avaliação e a exigência são condicionadas às ficções ministeriais.

Não por acaso os filhos da nossa classe política frequentam sobretudo até ao 9º ano o ensino privado. Em alguns casos até já nem são escolas privadas portuguesas mas sim estrangeiras como é o caso da escola alemã. E muitos mais debandarão do ensino público caso os ditames do conselho nacional de educação sejam seguidos pois poucos estarão para arriscar que os seus filhos sejam cobaias da introdução do «melhor modelo escolar do mundo em Portugal.»

Ao contrário do que diz o artigo do JN não são os filhos dos pobres que fazem baixar o nível do ensino. Quem destruiu o ensino público foram aqueles que resolveram fazer experimentalismo social nas escolas. Como é claro foram os primeiros a tirar de lá os filhos e agora acusam os mesmos pobres de não terem rendimento escolar. Se não tivessem desautorizados os professores e funcionários, se não tivessem baixado o nível de exigência curricular, se tivessem exigido responsabilidade às famílias pelo comportamento dos seus filhos… enfim se se tivessem comportado como uma escola a escola pública teriam certamente ajudado muito mais os pobres.

Curiosamente o artigo do JN refere que só frequenta o  Colégio S. João de Brito «quem pode pagar os 460 euros de mensalidade mensal no Ensino Secundário» lamento informar mas todos pagamos mais ou menos isso por cada aluno que frequenta uma qualquer escola pública. O custo por aluno nas piores escolas do ranking não é certamente muito diferente do apresentado nas mensalidades do citado São João de Brito. Feitas as contas as piores classificadas até saem muito mais caras porque as reprovações agravam os custos.

  

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Outubro 30 2008

 

   Do 31 da armada, com a devida vénia:

 

É fazer as contas

Em 2006, as escolas públicas e privadas apresentavam um indice de 17,5 por cento de resultados positivos nos exames nacionais de Matemática do 12º ano. Em 2007, esses valores atingiram os 65 por cento. Em 2008, o Ministério da Educação anuncia ufano que se chegou aos 96 por cento de resultados acima dos 9,5. É a prova provada de que há melhorias no sistema educativo.

 

Ou então há eleições para o ano, não sei.



 

       

 


Outubro 29 2008

     

De volta ao "Corte na aldeia", com todo o gosto e a devida vénia:

         

Era chama de queimar

   

 

 

 

 

Seus olhos – se eu sei pintar
   O que os meus olhos cegou –
   Não tinham luz de brilhar,
   Era chama de queimar;
   E o fogo que a ateou
   Vivaz, eterno, divino,
   Como facho do Destino.
   Divino, eterno! – e suave
   Ao mesmo tempo: mas grave
   E de tão fatal poder,
   Que, um só momento que a vi,
   Queimar toda alma senti...
   Nem ficou mais de meu ser,
   Senão a cinza em que ardi.


Almeida Garrett


pindaro      
# posted by cortenaaldeia @ 10/29/2008 01:29:00 PM 0 comments

   


 

emgestaocorrente às 21:27

Outubro 29 2008

                       

Fechar esta janela...

   

Guilherme Parente

10-O livro do deslumbramento, 100x81,2006

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emgestaocorrente às 19:40

Outubro 29 2008

   

Peso de Outono

    

Eu vi o Outono desprender suas folhas,

cair no regaço de mulheres muito loucas.

Cem duzentas pessoas num café cheio de fumo

na cidade de Heidelberg pronta para a neve

saboreavam tepidamente a sua ignorância.

  

Eu vi as amantes ensandecerem

com esse peso de Outono. Perderam as forças

com o Outono masculino e sangrento.

Os gritos a meio da noite

das amantes a meio da loucura voavam

como facas para o meu peito.

 

Alguns poetas li-os melhor no Outono,

certos amores só poderia tê-los,

como tive, nos dias doces da vindima.

   

Fernando Assis Pacheco, in

"A Musa Irregular", Edições Asa, 2º ed., 1996

    


 

emgestaocorrente às 19:07

Outubro 28 2008

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Armanda Passos,

Série "Eva na Terra das Maravilhas",10

guache s/ papel, 30x45, 2007

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emgestaocorrente às 22:15

Outubro 28 2008

         

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Ana Maria

acrilico s/ tela, 91x130, 2006

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emgestaocorrente às 21:53

Outubro 28 2008

  

Incêndio

   

Tu acendes a chama

do meu corpo

pões a lenha ao fundo

em sítio seco

    

Procuras no desejo

o ponto certo

e convocas aí

o lume certo

  

Se a madeira demora

a ganhar fogo

tomas-me as pernas

e deitas lento o vinho

  

Riscas os fósforos todos

e depois

é mais um incêndio

que adivinho

  

Maria Teresa Horta, in

"Só de amor"

  


 

emgestaocorrente às 21:41

Outubro 28 2008

    

Falência

  

Meu coração, rubra esplanada

abriu no verão, à beira-mar,

sobre uma praia desesperada

onde ninguém foi veranear.

   

David Mourão-Ferreira, in

"Obra Poética"

   


 

emgestaocorrente às 21:34

Outubro 23 2008

    

   Pedro Arroja, em  www.portugalcontemporaneo.blogspot.com, escreveu o post que a seguir transcrevo e que mostra bem a força da economia americana e porque é que Wall Street domina todo o mundo.

   Com a devida vénia:

24 Setembro 2008
Wall Street Pedro arroja
A crise financeira actual não é só americana - é mundial. E quanto pior fôr a situação na América pior será no resto do mundo. A influência económica e financeira da América no mundo é extraordinária. Ilustrarei aqui com as bolsas de valores.
 
A maior bolsa de acções do mundo é a americana, centrada em Wall Street, Nova Iorque. A dimensão de uma bolsa mede-se pela soma dos valores das acções nela cotadas - a chamada capitalização bolsista. A dimensão da bolsa americana é de $19.4 triliões (dados de 2006).
 
Em segundo lugar, a grande distância, vem o Japão ($4.7 triliões), cuja bolsa não chega a um quarto da americana. Em terceiro, a Inglaterra ($3.7 triliões), a maior bolsa da Europa, mas cuja dimensão não chega a um quinto da americana. Em quarto está França ($2.4 triliões). A bolsa portuguesa ($0.1 triliões) está na 40ª posição no mundo . Tudo somado, a bolsa americana tem uma capitalização que representa mais de metade das outras todas juntas.
 
Daí a liderança que Wall Street exerce sobre todas as outras praças internacionais. Quando a Bolsa americana sobe, as outras também sobem, e quando ela cai, as outras também caem. É raro a bolsa de um país andar a contraciclo da bolsa americana e, quando o faz, em geral não é por mais de um dia.
 
Os factores que contribuem para isto são vários. Saliento os dois mais importantes. Primeiro o peso da economia americana na economia mundial e a influência das suas empresas multinacionais nos outros países do mundo. A economia americana representa quase um terço da economia mundial, tal como medido pelo PIB ($12.4 triliões em $44.7 triliões) e as maiores empresas do mundo são americanas (as duas maiores, a Exxon Mobil e a Wal-Mart, possuem, cada uma, um volume anual de vendas igual ao dobro do PIB de Portugal). Se o sentimento é mau na América em relação à economia e às empresas, levando à queda da bolsa em Nova Iorque, em princípio deve ser também mau nos outros países do mundo, levando à queda das bolsas dos outros países. Segundo, muitas das empresas cotadas nas diferentes bolsas nacionais (v.g., a PT na bolsa de Lisboa) estão também cotadas em Nova Iorque. Ora, se a PT cai em Nova Iorque também tem de cair em Lisboa.
 
Não é difícil agora imaginar porque é que uma queda catastrófica na Bolsa de Nova Iorque, para além daquela que já ocorreu no último ano, terá o condão de levar tudo atrás. Não é possível prever um crash de bolsa. Os crashes não se anunciam. Mas que as probabilidades aumentaram em favor dele não restam dúvidas.
   
Publicada por Pedro Arroja em 15:32

 


Outubro 23 2008

   

   Sócrates  e os seus publicitários todos os dias nos anunciam novas maravilhas e milagres que o seu governo oferece ao país.

   A verdade é que do seu governo resultou uma estagnação económica, um aumento da inflação, mais desemprego, maior défice do comércio externo, maior endividamento do país, das empresas e das famílias, aumento da despesa pública à custa da despesa corrente e da diminuição do investimento, maior carga fiscal e menor rendimento dos cidadãos!

   Parabéns Universidade Independente!

 

   

 

2004
2008
Crescimento Económico
1,5%
0,8%
Inflação
2,5%
2,9%
Desemprego
6,7%
7,6%
 
Défice Externo
6,1%
do PIB
10,6%
do PIB
Endividamento do País
64%
100%
Despesa Pública Total
46,4%
47,8%
Despesa Corrente
42%
44,3%
Despesa Corrente Primária
39,3%
40,9%
Dívida Pública
58,3%
64%
Carga Fiscal
34,2%
37,5%
 
Rendimento por Habitante
74,7%
da média europeia
73,3%

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 


Outubro 22 2008

    

   Uma leitora não identificada colocou uma mensagem neste blogue, pedindo-me para ler o

que tinha publicado no www.maepreocupada.blogspot.com.

   Lá chegado, encontrei o texto que, a seguir, publico.

   Não sei o que a leva a escrever anonimamente, mas respeito a sua decisão.

   Por mim, sou um avô preocupado e a foto e o nome que constam no rosto deste blogue são verdadeiros.

   Também é público e notório que milito no PSD, embora, nos últimos anos, com muito pouco entusiasmo.

   Reconheço que o meu partido não está isento de culpas nesta matéria.

   Aliás, o "eduquês" é uma aberração medíocre e muito perigosa e que é transversal a todos os partidos.

   Os resultados, demolidores, estão à vista!

   De qualquer dos modos subscrevo o texto da "mãe preocupada", por isso o publiquei.

   Tanto mais que o "eduquês" nunca chegou tão longe como com esta ministra e o ensino nunca desceu tão baixo. 

     

      

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

A carta aberta que deveria estar fechada

 
Ela está publicada em dezenas de blogues e também se diz que circula livremente por e-mail neste mundo imprevisto e incontrolável que é a web. Se me perguntarem como, não saberei responder. A carta que escrevi ao José Sócrates (que não lhe enviei e à qual nunca chamei de "carta aberta" mas que foi intitulada como tal) foi um desabafo pessoal partilhado com meia dúzia de pessoas (como, aliás, está explícito num dos últimos parágrafos), não tinha qualquer pretensão literária nem era suposto ser um manifesto político. Mas a verdade é que ela saiu do meu controlo e ganhou vida própria, foi adoptada e subscrita por professores e pais solidários, mas também foi alvo de suspeitas e teorias descabidas.

Serve este blogue, que acabei de criar, para duas coisas que julgo fundamentais neste momento:
1º para agradecer todos os comentários elogiosos e de incentivo que encontrei na internet ao longo das últimas três semanas. Fico feliz por constatar que o país tem muita gente lúcida e que não se contenta com a mediocridade e o facilitismo.
2º para esclarecer e desmentir teorias respeitantes à verdadeira autoria da carta. Apesar de não ter sido eu a criar a assinatura "mãe preocupada", é de facto verdade que o sou. Não sou, como alguém já "postou" num blogue, membro de um gabinete de comunicação da oposição, nem sou, como também já me julgaram, uma "professora frustrada". Aliás, basta ler a carta com atenção para perceber que trabalho na área da comunicação e que, se votei em branco, não serei, certamente, da oposição. Sou uma mãe tão anónima, comum e apartidária como milhares neste Portugal. Mas sou informada. Considero-me esclarecida. E, se pus filhos no mundo, tenho que assumir a minha co-responsabilidade pelo rumo da sociedade e dos seus valores. Mudo fraldas, mas penso. Preparo mochilas, mas reivindico. Aqueço biberões, mas leio. O facto de eu saber de cor alguns versos d' "Os Lusíadas" não faz de mim uma professora de português. E o facto de eu ter convicções não faz de mim uma militante de qualquer partido.

Em relação ao anonimato da carta, também houve quem sugerisse que eu sou cobarde por não a ter assinado. Como já disse, não fui eu quem a colocou na internet. Mas como a minha intenção não era, e continua a não ser, a popularidade, opto por me manter a mesma "mãe preocupada" que alguém me chamou.

E já agora, porque "se não podes vencê-los, junta-te a eles", aqui nasce o meu blogue, onde muitas preocupações de mãe serão partilhadas a partir de agora. Sem politiquices nem aulas de português.

Mas que fique claro que a minha cruzada não é contra o Governo, mas a favor de um país melhor.
 

 


Outubro 19 2008
As Certezas do Meu Mais Brilhante Amor - Sérgio Godinho

  

 

As certezas do meu mais brilhante amor

Coisas do amor I

     

    

As certezas do meu mais brilhante amor

vou acender, que amanhã não há luar

eu colherei do pirilampo um só fulgor

que me desculpe o bom bichinho de o roubar

    

Assobiando as melodias mais bonitas

e das cidades, descrevendo o que já vi

homens e faces e os seus gestos como escritas

do bem, do mal; a paz, a calma e o frenesi

  

Se estou sózinho, é num beco que me encontro

vou porta-a-porta, perguntando a quem me viu

se ali morei, se eu era o mesmo e em que ponto

o meu desejo fez as malas e fugiu

   

Assobiando a melodia mais bonita

a da certeza do meu mais brilhante amor

da sensação, dentre as demais, a favorita

que é ver a rosa, com o tempo, a ganhar cor

  

Assobiando as melodias mais brilhantes

como o brilhante da certeza de um amor

como o rubi mais precioso entre os restantes

que é o da meiguice alternando com o ardôr

    

Não negarei ficar assim nesta beleza

assobiando as melodias mais fugazes

não é possível, nem é simples, com certeza

mas é a vontade que me dá do que me fazes

   

Sérgio Godinho,

LP "Coincidências"

       


 

emgestaocorrente às 15:52

Outubro 19 2008

                

               

2 telas de João Alfaro

"O Pudor" e "Menino"

acrilicos s/ tela, 30x24, 2003

www.joaoalfaro.com

       


 

emgestaocorrente às 15:28

Outubro 19 2008

   Por mail, recebi esta carta aberta qe passo a transcrever:

 

 

 

Sr. Engº José Sócrates,


Antes de mais, peço desculpa por não o tratar por Excelência nem por Primeiro-Ministro, mas, para ser franca, tenho muitas dúvidas quanto ao facto de o senhor ser excelente e, de resto, o cargo de primeiro-ministro parece-me, neste momento, muito pouco dignificado.


Também queria avisá-lo de antemão que esta carta vai ser longa, maspenso que não haverá problema para si, já que você é do tempo em que o ensino do Português exigia grandes e profundas leituras. Ainda pensei em escrever tudo por tópicos e com abreviaturas, mas julgo que lhe faz bem recordar o prazer de ler um texto bem escrito, com princípio, meio e fim, e que, quiçá, o faça reflectir (passe a falta de modéstia).


Gostaria de começar por lhe falar do 'Magalhães'. Não sobre os erros ortográficos, porque a respeito disso já o seu assessor deve ter recebido um e-mail meu. Queria falar-lhe da gratuitidade, da inconsequência, da precipitação e da leviandade com que o senhor engenheiro anunciou e pôs em prática o projecto a que chama de e-escolinha.


O senhor fala em Plano Tecnológico e, de facto, eu tenho visto a tecnologia, mas ainda não vi plano nenhum. Senão, vejamos a cronologia dos factos associados ao projecto 'Magalhães':

. No princípio do mês de Agosto, o senhor engenheiro apareceu na televisão a anunciar o projecto e-escolinhas e a sua ferramenta: o portátil Magalhães.

. No dia 18 de Setembro (quinta-feira) ao fim do dia, o meu filho traz na mochila um papel dirigido aos encarregados de educação, com apenas quatro linhas de texto informando que o 'Magalhães' é um projecto do Governo e que, dependendo do escalão de IRS, o seu custo pode variar entre os zero e os 50 euros.  Mais nada! Seguia-se um formulário com espaço para dados como nome do aluno, nome do encarregado de educação, escola, concelho, etc. e, por fim, a oportunidade de assinalar, com uma cruzinha, se pretendemos ou não adquirir o 'Magalhães'.

. No dia 22 de Setembro (segunda-feira), ao fim do dia, o meu filho traz um novo papel, desta vez uma extensa carta a anunciar a visita, no dia seguinte, do primeiro-ministro para entregar os primeiros 'Magalhães' na EB1 Padre Manuel de Castro. Novamente uma explicação respeitante aos escalões do IRS e ao custo dos portáteis.

. No dia 23 de Setembro (terça-feira), o meu filho não traz mais
papéis, traz um 'Magalhães' debaixo do braço.


Ora, como é fácil de ver, tudo aconteceu num espaço de três dias úteis em que as famílias não tiveram oportunidade de obter esclarecimentos sobre a futura utilização e utilidade do 'Magalhães'. Às perguntas que colocámos à professora sobre o assunto, ela não soube responder.
Reunião de esclarecimento, nunca houve nenhuma.

Portanto, explique-me, senhor engenheiro: o que é que o seu Governo pensou para o 'Magalhães'? Que planos tem para o integrar nas aulas?
Como vai articular o seu uso com as matérias leccionadas? Sabe, é que 50 euros talvez seja pouco para se gastar numa ferramenta de trabalho, mas, decididamente, e na minha opinião, é demasiado para se gastar num brinquedo. Por favor, senhor engenheiro, não me obrigue a concluir que acabei de pagar por uma inutilidade, um capricho seu, uma manobra de
campanha eleitoral, um espectáculo de fogo de artifício do qual só sobra fumo e o fedor intoxicante da pólvora.

Seja honesto com os portugueses e admita que não tem plano nenhum.
Admita que fez tudo tão à pressa que nem teve tempo de esclarecer as escolas e os professores. E não venha agora dizer-me que cabe aos pais aproveitarem esta maravilhosa oportunidade que o Governo lhes deu e ensinarem os filhos a lidar com as novas tecnologias. O seu projecto chama-se e-escolinha, não se chama e-familiazinha!  Faça-lhe jus!
Ponha a sua equipa a trabalhar, mexa-se, credibilize as suas
iniciativas!

Uma coisa curiosa, senhor engenheiro, é que tudo parece conspirar a seu favor nesta sua lamentável obra de empobrecimento do ensino assente em medidas gratuitas.

Há dias arrisquei-me a ver um episódio completo da série Morangos com Açúcar. Por coincidência, apanhei precisamente o primeiro episódio da nova série que significa, na ficção, o primeiro dia de aulas daquela miudagem. Ora, nesse primeiro dia de aulas, os alunos conheceram a sua professora de matemática e o seu professor de português. As imagens
sucediam-se alternando a aula de apresentação de matemática por contraposição à de português. Enquanto a professora de matemática escrevia do quadro os pressupostos da sua metodologia - disciplina, rigor e trabalho - o professor de português escrevia no quadro os
pressupostos da sua - emoção, entrega e trabalho. Ora, o que me faz espécie, senhor engenheiro, é que a personagem da professora de matemática é maldosa, agressiva e antiquada, enquanto que o professor de português é um tipo moderno e bué de fixe. Então, de acordo com os princípios do raciocínio lógico, se a professora de matemática é maldosa e agressiva e os seus pressupostos são disciplina e rigor, então a disciplina e o rigor são coisas negativas. Por outro lado, se o professor de português é bué de fixe, então os pressupostos da emoção e da entrega são perfeitos. E de facto era o que se via.
Enquanto que na aula de matemática os alunos bufavam, entediados, na aula de português sorriam, entusiasmados.

Disciplina e rigor aparecem, assim, como conceitos inconciliáveis com emoção e entrega, e isto é a maior barbaridade que eu já vi na minha vida. Digo-o eu, senhor engenheiro, que tenho uma profissão que vive das emoções, mas onde o rigor é 'obstinado', como dizem os poetas. Eu
já percebi que o ensino dos dias de hoje não sabe conciliar estes dois lados do trabalho. E, não o sabendo, optou por deixar de lado a disciplina e o rigor. Os professores são obrigados a acreditar que para se fazer um texto criativo não se pode estar preocupado com os erros ortográficos. E que para se saber fazer uma operação aritmética não se pode estar preocupado com a exactidão do seu resultado. Era o que faltava, senhor engenheiro!

Agora é o momento em que o senhor engenheiro diz de si para si: mas esta mulher é um Velho do Restelo, que não percebe que os tempos mudaram e que o ensino tem que se adaptar a essas mudanças? Percebo, senhor engenheiro. Então não percebo? Mas acontece que o que o senhor engenheiro está a fazer não é adaptar o ensino às mudanças, você está a esvaziá-lo de sentido e de propósitos. Adaptar o ensino seria afinar as metodologias por forma a torná-las mais cativantes aos olhos de uma geração inquieta e voltada para o imediato. Mas nunca diminuir, nunca desvalorizar, nunca reduzir ao básico, nunca baixar a bitola até ao nível da mediocridade.

Mas,  por falar em Velho do Restelo...

... Li, há dias, numa entrevista com uma professora de Literatura Portuguesa, que o episódio do Velho do Restelo foi excluído do estudo d'Os Lusíadas. Curioso, porque este era o episódio que punha tudo em causa, que questionava, que analisava por outra perspectiva, que é algo que as crianças e adolescentes de hoje em dia estão pouco habituados a fazer. Sabem contrariar, é certo, mas não sabem questionar. São coisas bem diferentes: contrariar tem o seu quê de gratuito; questionar tem tudo de filosófico. Para contrariar, basta bater o pé. Para questionar, é preciso pensar.

Tenho pena, porque no meu tempo (que não é um tempo assim tão distante), o episódio do Velho do Restelo, juntamente com os de Inês de Castro e da Ilha dos Amores, era o que mais apaixonava e empolgava a turma. Eram três episódios marcantes, que quebravam a monotonia do discurso de engrandecimento da nação e que, por isso, tinham o mérito de conseguir que os alunos tivessem curiosidade em descodificar as suas figuras de estilo e desbravar o hermetismo da linguagem. Ainda hoje me lembro exactamente da aula em que começámos a ler o episódio de Inês de castro e lembro-me das palavras da professora Lídia, espicaçando-nos, estimulando-nos, obrigando-nos a pensar. E foi há 20 anos.

Bem sei que vivemos numa era em que a imagem se sobrepõe à palavra, mas veja só alguns versos do episódio de Inês de Castro, veja que perfeita e inequívoca imagem eles compõem:

'Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruito,

Naquele engano d'alma ledo e cego,

Que a fortuna não deixa durar muito (...)'

Feche os olhos, senhor engenheiro, vá lá, feche os olhos. Não consegue ver, perfeitamente desenhado e com uma nitidez absoluta, o rosto branco e delicado de Inês de Castro, os seus longos cabelos soltos pelas costas, o corpo adolescente, as mãos investidas num qualquer bordado, o pensamento distante, vagueando em delícias proibidas no leito do príncipe? Não vê os seus olhos que de vez em quando escapam às linhas do bordado e vão demorar-se na janela, inquietos de saudade,
à espera de ver D. Pedro surgir a galope na linha do horizonte? E agora, se se concentrar bem, não vê uma nuvem negra a pairar sobre ela, não vê o prenúncio do sangue a escorrer-lhe pelos fios de cabelo?
Não consegue ver tudo isto apenas nestes quatro versos?

Pois eu acho estes quatro versos belíssimos, de uma simplicidade arrebatadora, de uma clareza inesperada. É poesia, senhor engenheiro, é poesia! Da mais nobre, grandiosa e magnífica que temos na nossa História. Não ouse menosprezá-la. Não incite ninguém a desrespeitá-la.

Bem, admito que me perdi em divagações em torno da Inês de Castro. O que eu queria mesmo era tentar perceber porque carga de água o Velho do Restelo desapareceu assim. Será precisamente por estimular a diferença de opiniões, por duvidar, por condenar? Sabe, não tarda muito, o episódio da Ilha dos Amores será também excluído dos conteúdos programáticos por 'alegado teor pornográfico' e o de Inês de
Castro igualmente, por 'incitamento ao adultério e ao desrespeito pela autoridade'.

Como é, senhor engenheiro? Voltamos ao tempo do 'lápix' azul?

E já agora, voltando à questão do rigor e da disciplina, da entrega e da emoção: o senhor engenheiro tem ideia de quanta entrega e de quanta emoção Luís de Camões depôs na sua obra? E, por outro lado, o senhor engenheiro duvida da disciplina e do rigor necessários à sua concretização? São centenas e centenas de páginas, em dezenas de capítulos e incontáveis estrofes com a mesma métrica, o mesmo tipo de
rima, cada palavra escolhida a dedo... o que implicou tudo isto senão uma carga infinita de disciplina e rigor?

Senhor engenheiro José Sócrates:  vejo que acabo de confiar o meu filho ao sistema de ensino onde o senhor montou a sua barraca de circo e não me apetece nada vê-lo transformar-se num palhaço. Bem, também não quero ser injusta consigo. A verdade é que as coisas já começaram a descarrilar há alguns anos, mas também é verdade que você está a sobrealimentar o crime, com um tirinho aqui, uma facadinha ali, uma desonestidade acolá.

Lembro-me bem da época em que fiz a minha recruta como jornalista e das muitas vezes em que fui cobrir cerimónias e eventos em que você participava. Na altura, o senhor engenheiro era Secretário de Estado do Ambiente e andava com a ministra Elisa Ferreira por esse Portugal fora, a inaugurar ETAR's e a selar aterros. Também o vi a plantar árvores, com as suas próprias mãos. E é por isso que me dói que agora, mais de dez anos depois, você esteja a dar cabo das nossas sementes e a tornar estéreis os solos que deveriam ser férteis.

Sabe, é que eu tenho grandes sonhos para o meu filho. Não, não me refiro ao sonho de que ele seja doutor ou engenheiro. Falo do sonho de que ele respeite as ciências, tenha apreço pelas artes,  almeje a sabedoria e valorize o trabalho. Porque é isso que eu espero da escola. O resto é comigo.

Acho graça agora a ouvir os professores dizerem sistematicamente aos pais que a família deve dar continuidade, em casa, ao trabalho que a escola faz com as crianças. Bem, se assim fosse eu teria que ensinar o meu filho a atirar com cadeiras à cabeça dos outros e a escrever as redacções em linguagem de sms. Não. Para mim, é o contrário: a escola é que deve dar continuidade ao trabalho que eu faço com o meu filho.
Acho que se anda a sobrevalorizar o papel da escola. No meu tempo, a escola tinha apenas a função de ensinar e fazia-o com competência e rigor. Mas nos dias que correm, em que os pais não têm tempo nem disposição para educar os filhos, exige-se à escola que forme o seu carácter e ocupe todo o seu tempo livre. Só que infelizmente ela tem cumprido muito mal esse papel.

A escola do meu tempo foi uma boa escola. Hoje, toda a gente sabe que a minha geração é uma geração de empreendedores, de gente criativa e com capacidade iniciativa, que arrisca, que aposta, que ambiciona. E não é disso que o país precisa? Bem sei que apanhámos os bons ventos da adesão à União Europeia e dos fundos e apoios que daí advieram, mas
isso por si só não bastaria, não acha? E é de facto curioso: tirando o Marco cigano, que abandonou a escola muito cedo, e a Fatinha que andava sempre com ranhoca no nariz e tinha que tomar conta de três irmãos mais novos, todos os meus colegas da primária fizeram alguma coisa pela vida. Até a Paulinha, que era filha da empregada (no meu tempo dizia-se empregada e não auxiliar de acção educativa, mas, curiosamente, o respeito por elas era maior), apesar de se ter ficado pelo 9º ano, não descansou enquanto não abriu o seu próprio Pão Quente
e a ele se dedicou com afinco e empenho. E, no entanto, levámos reguadas por não sabermos de cor as principais culturas das ex-colónias e éramos sujeitos a humilhação pública por cada erro ortográfico. Traumatizados? Huuummm... não me parece. Na verdade, senhor engenheiro, tenho um respeito e uma paixão pela escola tais que, se tivesse tempo e dinheiro, passaria o resto da minha vida aestudar.

Às vezes dá-me para imaginar as suas conversas com os seus filhos (nem sei bem se tem um ou dois filhos...) e pergunto-me se também é válido para eles o caos que o senhor engenheiro anda a instalar por aí.
Parece que estou a ver o seu filho a dizer-lhe: ó pai, estou com
dificuldade em resolver este sistema de três equações a três
incógnitas... dás-me uma ajuda? E depois, vejo-o a si a responder com a sua voz de homilia de domingo: não faz mal, filho... sabes escrever o teu nome completo, não sabes? Então não te preocupes, é perfeitamente suficiente...

Vendo as coisas assim, não lhe parece criminoso o que você anda a fazer?

E depois, custa-me que você apareça em praça pública acompanhado da sua Ministra da Educação, que anda sempre com aquele ar de infeliz, de quem comeu e não gostou, ambos com o discurso hipócrita do mérito dos professores e do sucesso dos alunos, apoiados em estatísticas cuja real interpretação, à luz das mudanças que você operou, nos apresenta uma monstruosa obscenidade. Ofende-me, sabe? Ofende-me por me tomar por estúpida.

Aliás, a sua Ministra da Educação é uma das figuras mais
desconcertantes que eu já vi na minha vida. De cada vez que ela fala, tenho a sensação que está a orar na missa de sétimo dia do sistema de ensino e que o que os seus olhos verdadeiramente dizem aos pais deste Portugal é apenas 'os meus sentidos pêsames'.

Não me pesa a consciência por estar a escrever-lhe esta carta. Sabe, é que eu não votei em si para primeiro-ministro, portanto estou à vontade. Eu votei em branco. Mas, alto lá! Antes que você peça ao seu assessor para lhe fazer um discurso sobre o afastamento dos jovens da política, lembre-se, senhor engenheiro: o voto em branco não é o voto da indiferença, é o voto da insatisfação! Mas, porque vos é conveniente, o voto em branco é contabilizado, indiscriminadamente, com o voto nulo, que é aquele em que os alienados desenham macaquinhos
e escrevem obscenidades.

Você, senhor engenheiro, está a arriscar-se demasiado. Portugal está prestes a marcar-lhe uma falta a vermelho no livro de ponto. Ah... espere lá... as faltas a vermelho acabaram... agora já não hácastigos...
 
Bem, não me vou estender mais, até porque já estou cansada de repetir 'senhor engenheiro para cá', 'senhor engenheiro para lá'. É que o meu marido também é engenheiro e tenho receio de lhe ganhar cisma.

Esta carta não chegará até si. Vou partilhá-la apenas e só com os meus E-leitores (sim, sim, eu também tenho os meus eleitores) e talvez só por causa disso eu já consiga hoje dormir melhor. Quanto a si, tenho dúvidas.

Para terminar, tenho um enorme prazer em dedicar-lhe, aqui, uma estrofe do episódio do Velho do Restelo. Para que não caia no esquecimento. Nem no seu, nem no nosso.

'A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias? '

Atenciosamente e ao abrigo do artigo nº 37 da Constituição da
República Portuguesa,

Uma mãe preocupada

     


 


Outubro 19 2008

  

Carole King, Celine Dion, Gloria Estefan & Shania Twain

juntas e ao vivo, cantam ( e encantam)

You've got a friend

um êxito do inicio dos anos 70,

de James Taylor.

Bom Domingo!

 


 


Outubro 17 2008

             

   

 


 

emgestaocorrente às 22:47

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