Em gestão corrente ...como o País...

Janeiro 30 2008

       

Um grande poema de António José Forte,

uma grande canção de Vitorino

    (para ouvir clique no botão Play)

    

   

    

Poema

   

Alguma coisa onde tu parada

fosses depois das lágrimas uma ilha

e eu chegasse para dizer-te adeus

de repente na curva duma estrada

 

alguma coisa onde a tua mão

escrevesse cartas para chover

e eu partisse a fumar

e o fumo fosse para se ler

 

alguma coisa onde tu ao norte

beijasses nos olhos os navios

e eu rasgasse o teu retrato

para vê-lo passar na direcção dos rios

    

alguma coisa onde tu corresses

numa rua com portas para o mar

e eu morresse

para ouvir-te sonhar

    

António José Forte

Vitorino

emgestaocorrente às 21:57

Janeiro 30 2008

                             

  

Um velho clássico de Roy Orbison

por KD Lang

 


emgestaocorrente às 21:21

Janeiro 30 2008

Ele não fez fotografias de Portugal. Fotografou Portugal, como se de uma pessoa se tratasse, mesmo ali à sua frente, enquanto olha para o passarinho.

A primeira vez foi para mostrar a fotografia de um maneta, na praia, a sair da água todo desengonçado, com aquela cara de quem acabou de acordar com uma ressaca de bagaço. Ao lado, dentro de água, vê-se uma mulher vestida que agarra uma criança aos berros. Na altura, eu olhei para isto e vi Portugal.

O mesmo Portugal que vejo no retrato deste homem e desta mulher que acabaram de casar numa aldeia transmontana. Quem vê esta fotografia vê logo o Portugal dos anos 60, o qual não devia ser muito diferente do Portugal dos anos 30, o qual não devia ser muito diferente do Portugal do princípio do século.

Mas eu vejo esta fotografia e continuo ainda a ver o Portugal do século XXI. Imagino os filhos e os netos deste casal e vejo-os reféns desta fotografia. Como uma marca que determina geneticamente as gerações seguintes.

Vê-se logo, nesta imagem, uma clara contradição entre a mesa e as expressões vagas do casal.

Percebe-se que é dia de festa. Uma mesa cirurgicamente bem posta e preparada para uma cerimónia que se imagina farta de comida. Uma mesa orgulhosa e que não esconde uma certa vaidade, lembrando a expressão de felicidade das mulheres quando saem da cabeleireira.

Pelo contrário, o casal, pobre e analfabeto, está com um ar de exílio e de abandono. Um ar absolutamente heimatlos, o ar, não de quem acabou de sair da cabeleireira, mas de quem acabou de chegar a Paris, a cidade-luz, vindos da aldeia ainda sem luz e de onde nunca tinham saído.

Foi nos anos 80 que Portugal viu a luz da Europa a entrar pela janela. Até então, não passava de um pobre e obscuro país entalado entre o vazio da planície espanhola e o vazio do mar, cujo mapa interior está bem reflectido no rosto deste casal.

Quando Portugal se sentou à mesa para o banquete, sentiu-se orgulhoso ao lado da Alemanha, da França, da Inglaterra, da Holanda, de todos aqueles loiros de olhos azuis que conhecia dos telejornais e das praias. Sentiu que entrara finalmente na Europa.

Mas mais do que a luz da Europa a entrar pela janela foi o dinheiro da Europa a entrar nos bancos e a sair pelos multibancos. Não uma janela de vidro e com vista para o exterior mas uma janela de oportunidades perdidas.

Portugal é, hoje, um país com uma mesa farta: um país de telemóveis, plasmas do melhor, computadores para dar e vender, cozinha equipada, carro à porta, passeios dominicais ao shopping. Eu vejo os filhos e os netos deste casal e vejo-os já na cidade, num T3 de Chaves, Bragança ou Vinhais, uma qualquer cidade de Trás-os-Montes da Europa.

A mesa dos filhos e netos continua, pois, farta e bem posta. Mas são ainda os filhos dos seus pais e os netos dos seus avós que um dia irão ser os avós dos seus netos. Já sabem ler e escrever, claro, mas não sabem ler e escrever como seria suposto saber ler e escrever um europeu normal do século XXI.

O rosto deste casal é o rosto de Portugal depois das especiarias da Índia e dos escravos de África. O rosto de Portugal depois do ouro do Brasil. O rosto de Portugal depois dos fundos europeus.

O rosto de quem está ao mesmo tempo deslumbrado e atónito perante uma mesa opulenta, para um dia de festa que acaba sempre cedo demais.

Vi, na semana passada, no telejornal, a inauguração do casino de Chaves. Mal as portas abriram, entraram centenas de pessoas que aguardavam lá fora, ansiosas, a abertura.

Não, não eram jogadores como aqueles de Monte Carlo, de papillon e cabelo com brilhantina puxado para trás e a passar o dedo pelos lábios como o gigolo de óculos escuros do Martini Cinzano. Eram os flavienses puros e duros que, ululantes, entravam no casino como se entrassem no piquenicão da Rádio Renascença, na Ovibeja ou na Fatacil. Novos e velhos.

Quem sabe se, no meio desta multidão não estaria também o casal desta fotografia. Bem gostava de os ver agora, já velhos, assim como quem viu a menina afegã da capa da National Geographic, muitos anos depois.

Acho que os iria encontrar ainda com o mesmo ar aparvalhado de 1964, só que, desta vez, não perante uma mesa para comer, mas uma mesa para jogar ou uma slot machine cheia de luz, a mesma luz do shopping por onde passarão no domingo à tarde.

Eu vejo o ar aparvalhado deste casal e vejo o ar aparvalhado de Portugal. Pobre perante a riqueza, rico perante a pobreza.

Eu disse que isto era um retrato de Portugal.

josericardoccosta@gmail.com

  

  

   Mais um excelente texto de José Ricardo Costa publicado no "Jornal Torrejano" da semana passada e que não resisti a rapinar.

   Um abraço ao Professor JRCosta.

 

A mesa


Janeiro 30 2008

       

Então oiça este "Prelúdio nº 2"

de Heitor Villa-Lobos

por Eduardo Fernández em guitarra clássica

(para ouvir clique no botão Play)              

 

 

          

 


 

emgestaocorrente às 20:21

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