Em gestão corrente ...como o País...

Fevereiro 15 2008

   

   O Jornal Torrejano desta semana publica mais uma excelente e imperdível crónica de José Ricardo Costa que, aqui e com uma grande vénia, se transcreve:

       

Dizia-me há dias uma colega minha que as minhas crónicas andavam amargas, longe do humor e jovialidade de outros tempos.

Em vez de desanimar, decidi fazer-lhe a vontade e escrever alguma coisa mais bem disposta. Comecei então a pensar nalguns membros do governo para ver qual deles poderia contribuir para recuperar o meu alienado sentido de humor.

Eis senão quando dou por mim a levar um tremendo murro no estômago que me atira de novo para o tapete do pessimismo: o sentimento de horror perante as casas projectadas pelo engenheiro Sócrates na altura em que o engenheiro era mesmo engenheiro na câmara da Covilhã.

Murro fatal. Do tão ansiado riso passei de novo ao desespero, tendo pois a minha colega que esperar por novas oportunidades (esta saiu-me sem querer), até os normais circuitos neurológicos do meu cérebro deixarem de estar diluídos no fel do desgosto perante a ausência de gosto do ex-ministro do ambiente.

O meu primeiro pensamento foi de natureza psicanalítica. E toda a gente sabe que é de coisas tristes que se fala quando se fala de psicanálise.

Quando os pais de Sócrates se divorciaram, tinha ele 5 anos, ficou com o pai, arquitecto, na Covilhã, enquanto os dois irmãos foram com a mãe para Cascais. Ora, 5 anos é a idade do complexo de Édipo, aquela coisa dos rapazes matarem simbolicamente o pai.

Só que havia aqui um problema. Longe da mãe, não teria dado lá grande jeito matar o pai. Ora, é aqui que eu avanço com a minha arrojada teoria. Já que não o pôde fazer na altura própria, as horripilantes casas de Sócrates foram um mecanismo subconsciente de matar o pai arquitecto. Simbolicamente, claro, mas sobretudo de desgosto.

Sei lá, como se a Scarlett Johansonn, para não ficar parecida com mãe, fizesse uma plástica para ficar parecida com a Manuela Moura Guedes.

O próprio autoritarismo e mau feitio de Sócrates podem resultar de uma necessidade subconsciente de subjugar o pai, sobretudo depois deste o ter derrotado e humilhado enquanto número dois da lista do PSD à câmara da Covilhã.

Porém, não querendo eu explorar a vida privada do engenheiro, abandonei por completo tais especulações.

Mas a minha obsessão pelo pitoresco e autárquico sentido estético do ex-ministro do Ambiente não me largou. E foi isso que me fez pensar no sentido do seu sucesso político e social num país como Portugal.

O engenheiro, em popularidade, está bem acima do seu governo e do parlamento. Não deixa de ser estranho, se pensar que já não deve haver quem não se desmanche a rir sempre, e é quase sempre, que fala com aquele ar de quem se sente Moisés guiando o povo pelo deserto.

Só que, neste caso, mais no sentido da anedota judaica: guiando o povo de Israel pelo deserto mas para depois o largar no único sítio do Médio Oriente onde não existe petróleo.

Mas aí é que está. Na very, very Europe’s west coast, os seus projectos na Rapoula, Valhelhas ou Covadoude, são um fortíssimo motivo de orgulho. O gosto de Sócrates é o gosto dos portugueses. Ou, se quiserem: vice-versa.

As casas de Sócrates, numa altura em que ainda não vestia Armani, são um símbolo da portugalidade. Hoje, vestido de Armani, Sócrates, é o filho que todos os portugueses gostariam de ter, num tempo em que já não se sobe na vida a pulso mas à vara.

Apesar de ser mais conhecido por correr, Sócrates é o típico português que, na vida, conseguiu saltar à vara, qualquer coisa que afaga o inconsciente colectivo dos portugueses.

Saltar à vara, antigamente, era apenas uma modalidade desportiva. Hoje, significa subir na vida, subida que pode ir desde o sopé em Mogadouro até ao cume dos dois maiores bancos portugueses, bastando para isso fazer um estágio de alpinista no PS e um curso de Relações Internacionais da universidade Independente.

O engenheiro das casinhas da Guarda, tal como Armando de Mogadouro ou, em tempos, o seminarista de Santa Comba Dão, continua a ser um dos "nossos" em Lisboa. E os portugueses apreciam esses vestígios de provinciano que singrou num meio do qual se sentem arredados, de uma burguesia lisboeta e portuense que frequentou os melhores colégios e que no berço bebeu chá e comeu sopa de letras inglesas, francesas ou alemãs, em vez de sopinhas de leite e farinha Maizena.

Sócrates é insuportavelmente arrogante? Mas os portugueses gostam de políticos arrogantes. É por isso que aguentaram Salazar tanto tempo e deram a segunda maioria a Cavaco. É também por isso que gostaram menos de Caetano e de Guterres.

Tivesse ido o José para Cascais com a mãe e provavelmente não seria o José que conhecemos. Acho que teríamos hoje um arquitecto simpático em vez de um engenheiro arrogante.

Perdoe-me o jargão. Mas é mesmo caso para dizer que Freud explica.

    

josericardoccosta@gmail.com

  


Valhelhas Europe’s West Coast


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