Em gestão corrente ...como o País...

Fevereiro 04 2008

   

Vê se há mensagens

no gravador de chamadas;

rega as roseiras;

as chaves estão

na mesa do telefone;

traz o meu

caderno de apontamentos

(o de folhas

sem linhas, as linhas distraiem-me).

Não digas nada

a ninguém,

o tempo, agora,

é de poucas palavras,

e de ainda menos sentido.

Embora eu, pelos vistos,

não tenha razão de queixa.

     

Senhor, permite que algo permaneça,

alguma palavra ou alguma lembrança,

que alguma coisa possa ter sido

de outra maneira,

não digo a morte, nem a vida,

mas alguma coisa mais insubstancial.

Se não para que me deste os substantivos e os verbos,

o medo e a esperança,

a urze e o salgueiro,

os meus heróis e os meus livros?

    

Agora o meu coração

está cheio de passos

e de vozes falando baixo, de nomes passados

lembrando-me onde

as minhas palavras não chegam

nem a minha vida

nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.

    

Manuel António Pina, in

"Monólogos", incluído na "Poesia Reunida", Assirio & Alvim, 2001

        


emgestaocorrente às 22:17

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